Dando Nota

Rodrigo Alves

Conversa franca com o senhor Galo

Publicado no Jornal de Piracicaba em 30 de junho de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Caro senhor Galo,

Há pouco mais de um ano, a saúde do meu sono não é mais a mesma graças ao senhor. Não que a culpa seja sua. Eu cheguei depois. Encontrei um apartamento maior e melhor, no mesmo prédio. Fiz a mudança sem hesitar. Só não me avisaram que de um lado para o outro havia uma diferença básica: o seu canto diário na madrugada. Por isso, resolvi lhe chamar para uma conversa franca.

Nos primeiros dias, cheguei a pensar que o seu canto seria como as badaladas do sino da Catedral, aos poucos imperceptíveis a cada meia hora. Mas o senhor insistiu em me acordar nos dias de chuva ou de sol, aos sábados, domingos e feriados. Devo admitir: o senhor nunca falta ao compromisso, mas, diferente do relógio, cada dia canta num horário!

O senhor Galo há de convir que o Centro de uma cidade de quase 400 mil habitantes não é a sua morada adequada. Tudo bem que, a exemplo de mim, o senhor se acomoda em qualquer espaço. Se vivi quase 15 anos num cubículo de 30 metros quadrados, o senhor também se contenta com um terreno e, além de tudo, mantém a supremacia do canto mais alto nas madrugadas. Supera ruídos de bares, carros e dos aventureiros de carros tunados com música em volume elevado.

Num domingo desses, preocupado com a sobrecarga de trabalho do dia seguinte, cobri a cabeça com o edredom e pedi a todos os santos que meu sono fosse interrompido às 7h, horário do despertador. Eles não me ouviram, mas eu te ouvi bem, às 3h30. Abri a janela, mirei em todos os terrenos baldios para tentar te encontrar. Como se intuísse meu mau humor, o senhor parou. Voltei a dormir. O senhor, de novo, cantou!

Num desabafo nas redes sociais, descobri seu endereço e o seu dono: um professor aposentado, também articulista deste mesmo jornal, que escreveu um artigo afirmando que animais só fazem bem à gente. Proprietário de um terreno baldio no Centro que está à venda, o seu dono achou que um galo é a solução para acabar com os escorpiões, mas se esqueceu que na mesma área moram pessoas que querem apenas dormir.

Desse mesmo desabafo descobri não estar sozinho em meu incômodo. Moradores de prédios e residências vizinhas informaram sentir o problema na pele, ou melhor, nos ouvidos e no sono. Uma amiga desce umas doses etílicas para o sono pesar. Outra vai na base do chá. Outro recorre aos protetores auriculares na farmácia. Nem para isso tenho sorte, pois o acessório é contraindicado para quem sofre de zumbido, como é o meu caso.

Senhor Galo, dizem por aí que o mercado imobiliário não anda bem das pernas. Eu torço para que melhore. Aliás, adianto que estou procurando um apartamento novo para morar, longe do seu cantar. E quando o proprietário do imóvel vier me perguntar os motivos, pedirei que ele também tenha uma conversa franca com o senhor.

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Publicado às 30 de junho de 2017 por em Opinião e marcado , , , .

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#piracicaba250anos #piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions!
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