Dando Nota

Rodrigo Alves

Cara elite pobre

Publicado no Jornal de Piracicaba em 9 de junho de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Cara Gente Branca, seriado da Netflix, abre a primeira temporada com uma festa de alunos brancos se vestindo como negros, reproduzindo a prática do black face. Algo que guarda similaridade com um episódio tornado público esta semana no Rio Grande do Sul, onde a Instituição Evangélica de Novo Hamburgo instigou seus estudantes a se fantasiaram com trajes de carreiras que, supostamente, seriam adequadas aos reprovados no vestibular.

Evidentemente que a questão racial de Cara Gente Branca é mais ampla, mas é inevitável, nos dois casos, a comparação sobre a disseminação dos preconceitos no ambiente escolar. A diferença básica é que a série da Netflix é uma obra de ficção, ainda que retrate a realidade, enquanto o recreio temático “Se nada der certo” em terras gaúchas se desenvolve num espaço de formação que, a julgar pelo nome, deveria propagar valores cristãos.

Ao postar as imagens dos estudantes vestidos de ambulantes, faxineiras, vendedores, gari, porteiros e outras profissões “que não deram certo”, o colégio tem um recado claro: “aqui formamos elite”. Slogan esse que é ostentado por muitas instituições de ensino, empresas capitalistas na essência, que se aproveitam da chancela da educação para estabelecer nas mentes dos jovens o julgamento de que a elite é melhor que os demais grupos sociais e, por isso, estaria apta a dominar a sociedade.

O dinheiro que pagou as fantasias dos jovens é de seus pais, que assinaram um atestado de concordância com a política do colégio e com a realização do “momento de integração e descontração entre os formandos”. Demonstraram, portanto, ter os mesmos valores enraizados em seus lares.

Para estes pais, é uma vergonha que suas proles trabalhem no Carrefour ou no McDonald’s no Brasil, mas estes filhos podem, no exterior, arranjar um part-time job como baby-sitter, hostess e bartender. Ah, mas nos Estados Unidos eles podem, estão fazendo intercâmbio, aprimorando o inglês, conhecendo novas culturas, dirão estes mesmos pais.

Coincidentemente, a polêmica “Se nada der certo” surgiu na mesma semana que a Universidade de Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo, cancelou a aprovação de pelo menos 10 calouros, após constatar nas redes sociais piadas sobre o Holocausto, mortes de crianças e ataques a minorias.

Se há iniciativas louváveis de uma universidade também de elite, é indispensável relembrar o preconceito tupiniquim. Como fez Boris Casoy em 2009, ao classificar dois lixeiros como “o mais baixo da escala do trabalho” e, mais recentemente, um escritório paulista de advocacia, que promoveu um bate-papo sobre temas relevantes aos pais de elite, como: “minha filha entrou na USP. E agora?” e “jovens bem-nascidos no mercado de executivos”.

É importante que a sociedade combata a postura do colégio gaúcho, pois o abismo entre a Casa Grande e a senzala está se tornando ainda maior quando os políticos brasileiros rechaçam as metas de combate à discriminação e desigualdade de gênero dos planos nacionais e municipais de educação. O mesmo país se entrega cada vez mais à luta de classes e tapa os olhos para a precarização promovida nas reformas trabalhista e da Previdência, concebidas para privilegiar a cara gente rica, ou melhor, a cara elite podre e pobre.

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