Dando Nota

Rodrigo Alves

O palco transformado em divã

Publicado no Jornal de Piracicaba em 2 de junho de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Conectada aos personagens cotidianos das metrópoles e responsável por montagens que tratam das pessoas invisíveis, a Companhia de Teatro Satyros esteve em Piracicaba com o solo Todos os Sonhos do Mundo, única atração na Virada Cultural Paulista que me atraiu no domingo, 28.

Conhecida da cena underground, a companhia instalada desde 2000 na praça Roosevelt, se apresentou em Piracicaba pela última vez há 3 anos, no Sesc, com Pessoas Perfeitas, Não Fornicarás, Não Amarás e A Filosofia na Alcova. Por isso, para quem acompanhou Os Satyros em Perspectiva, a expectativa era grande.

Desta vez, a opção para o público piracicabano no Teatro do Engenho foi por uma montagem estreada em 2015, tendo no elenco apenas Ivam Cabral, que fundou a trupe com Rodolfo García Vázquez.

Ivam chega ao palco nos mesmos moldes que um personagem de stand-up comedy. Um banquinho, o microfone e o foco de luz sobre ele, de camiseta branca e jeans. Tem um iPad nas mãos e um nariz de palhaço. Mas não está ali para fazer piada. É justamente o contrário.

Nos cinco primeiros minutos, é difícil encontrar empatia com o ator, mesmo sendo o tema por ele proposto um tabu dos dias atuais, a depressão. Até aí, o público tem uma vaga noção de que o ator irá expor seus relatos pessoais.

Ivam começa a ganhar o público para si ao aproximar sua história dos que o assistem, ao trazer parte da trajetória do Satyros, fundado em 1989, e ao incluir relatos da vivência do grupo em Lisboa e do processo que culminou no retorno para a capital paulista, já sob consagração da crítica.

Diagnosticado com tumor maligno na tireoide em novembro de 2014, Ivam se define como uma alma triste que precisa ser contada. E lembra que as pessoas falam, o tempo todo, em criar significados para as suas vidas, mas negam, nesse mesmo tempo, os próprios significados.

Após saber do seu drama, a plateia, agora próxima, é provocada: “ninguém carrega um peso maior do que suporta”.

Surgem as narrativas da infância, no interior do Paraná, em Ribeirão Claro, e histórias dramáticas que podem ser verdadeiras ou não, de personagens comuns, desconhecidos e cujos desfechos são depressivos.

Ao abrir mão dos clássicos figurinos e da estrutura narrativa convencional, Ivam dá a voz aos que vieram lhe assistir. Quebra, com isso, a quarta parede imposta pela imensidão do palco e ainda tem as pessoas como aliadas na ampla discussão sobre o tema, geralmente restrito aos consultórios.

Espetáculo difícil de digerir, que transforma o palco em divã, Todos os Sonhos do Mundo trata de verdades, identidades, futuros e a relevância dos sentimentos. Como nos lembra Ivam ao evocar Dialética, de Vinícius de Moraes, e fazer o público sair do teatro com novas interrogações: “tenho tudo para ser feliz, mas acontece que eu sou triste”.

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