Dando Nota

Rodrigo Alves

Recomendado à sociedade

Publicado no Jornal de Piracicaba em 26 de maio de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Foram as condições climáticas que me afastaram das atrações da sempre aguardada Virada Cultural Paulista, que no último fim de semana aconteceu em Limeira e Santa Bárbara d’Oeste. A chuva deu trégua e me permitiu apenas assistir a Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz, mas antes disso procurei uma opção em espaço fechado na cidade. Encontrei o espetáculo #NãoRecomendados.

Optar pelo Sesc Piracicaba foi uma obra do acaso, pela vontade de fugir do tédio. Poucas informações tinha do show, apenas o fato de no elenco integrar Diego Moraes, barbarense que viveu em Piracicaba, vice-campeão do reality show Ídolos. Após a última conferida na matéria do JP, senti que a programação poderia agradar.

Reticente ou não, encontrei um espetáculo extremamente politizado, de reflexões sobre o atual Estado Democrático de Direito (se é que ainda o temos), com a participação também de Caio Prado e Daniel Chaudon, produzidos por Edu Capello. Gritos de Fora Temer, muitos, sem esquecer de Joesley Batista gozando de nossa cara em Nova Iorque após a sua delação premiada, letrado no empolgado funk que encerrou o show.

Autores-intérpretes, Diego, Daniel e Caio não se prenderam ao estigma de subcelebridades de reality shows. Com #NãoRecomendados, conquistaram a simpatia de nomes como Ney Matogrosso e fizeram shows concorridos na capital paulista e em terras cariocas. Todos têm suas carreiras solos e de respeito na cena musical. E mais um detalhe: estrearam esse mesmo projeto num bar de Piracicaba, há três anos. Havia, portanto, um quê a mais na performance do trio.

Travestidos e sem qualquer tipo de repressão, no palco ecoaram o grito de liberdade de expressão. Denunciaram, em cada letra, os vários preconceitos. Eram, ali, a voz dos marginalizados.

Em especial no quesito letra, a canção-título do show é uma denuncia ao comportamento homofóbico, machista e racista. É difícil ouvir tantos rótulos ritmados e harmonizados — “pervertido”, “mal amado”, “má influência”, “menino indecente” e “viado” — sem sentir arrepio, tristeza e revolta.

Mais que um show de música, #NãoRecomendados soou como um hino de resistência e isso se deve também ao figurino e ao poder performático do trio. Convidou o público a também subverter a lógica do politicamente correto. Pois, ao contrário do que bem cantou Cazuza, sobrevivemos com muitos arranhões, da caridade de quem nos detesta.

Era para ser um sábado despretensioso, matar o tempo, desligar das notícias sensacionalistas. O grito cantado de #NãoRecomendados não deixou. Só me convidou a pensar “fora da caixa”.

Reflexões ao público? Muitas! Incógnitas? Inúmeras! Espetáculo para deixar o cérebro a mil e te fazer fugir da alienação. Peça pronta e ao mesmo tempo subversiva, que despertou a vontade de gritar: #NãoRecomendados é altamente recomendado à sociedade!

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Publicado às 26 de maio de 2017 por em Opinião e marcado , , , , , .

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