Dando Nota

Rodrigo Alves

A mentira como matéria-prima

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 19 de maio de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Nos últimos tempos, o jornalismo tem debatido uma expressão eleita pelo dicionário Oxford como a palavra de 2016: a pós-verdade, algo que o público pouco conhece e que faz parte cada vez mais da sua rotina. É quando os fatos importam menos do que aquilo em que as pessoas escolhem acreditar.

Enquanto escrevo esse texto, pulo da tela do Word para a tela do Facebook e surge outra definição, a chamada bolha ideológica, em que são priorizados na timeline do usuário assuntos que mais lhe agradam, a partir da coleta de dados do perfil.

Ao serem agrupadas de acordo com suas inclinações ideológicas e políticas, as pessoas deixam de ser expostas ao outro lado e a versões que podem ser mais próximas da realidade (lembremos que verdade absoluta é um conceito utópico). Forma-se, então, um círculo vicioso, que colabora para a polarização dos debates.

Um dos exemplos mais instigantes seria o estudo divulgado pela USP em janeiro com os 10 maiores sites de notícias falsas no Brasil. Seria, porque o próprio estudo não existiu. Foi uma notícia falsa sobre notícias falsas que enganou até mesmo órgãos confiáveis de imprensa.

Ainda que na internet existam veículos que possuem a mentira como matéria-prima, se faz necessário lembrar que também os meios tradicionais da mídia, que gozam de reputação do público, contribuem para a pós-verdade.

O caso mais recente veio de O Estado de S. Paulo, na notícia “Hopi Hari está perto de fechar”. Segundo o parque, houve um “ataque orquestrado” da mídia, ao pressagiar um fim. Na prática, as portas estavam fechadas temporariamente, com a intenção de “voltar à luta com mais força”. Mas até que a resposta oficial chegasse ao público, a pós-verdade já havia se espalhado.

Outros episódios foram difundidos pelas redes sociais, como a distribuição gratuita de chocolates pela Kopenhagen, a hipótese de que a ex-primeira dama Marisa Letícia não morreu e a afirmação do líder do MBL, Kim Kataguiri, de que o cantor Ney Matogrosso era favorável ao impeachment de Dilma Rousseff.

A era atual, marcada pelo excesso de informação, pela alienação noticiosa e pelo apelo à emoção e às crenças pessoais, demonstra que a verdade perde, cada vez mais, importância no debate. Parte da imprensa tem sua culpa, quando deixa de apurar e checar os fatos, de trazer a informação qualificada ou, na pior das hipóteses, quando tenta moldar as opiniões públicas.

Ainda que leigo, o público não pode ser classificado de ingênuo, mesmo ao se contentar com apenas um lado da moeda. Ele tem em mãos mecanismos para buscar o outro lado e para rejeitar sem passividade a mentira. Como também pode, intencionalmente, proliferar vídeos, mensagens de texto, posts e tuítes venenosos.

Somadas, pós-verdade e bolha ideológica, representam um perigo concreto para os regimes democráticos. Como diz um velho ditado, uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.

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Publicado em 19 de maio de 2017 por em Opinião.

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