Dando Nota

Rodrigo Alves

Universidade da internet

Publicado no Jornal de Piracicaba em 5 de maio de 2017
Caderno Cultura – Página 2

A cena se repete em flashes mais rápidos que o piscar de olhos. É você entrar nas redes sociais e lá estão as opiniões qualificadas e convincentes para temas variados.

Belchior morreu. Sério? Surge uma legião recitando seus versos. José Dirceu foi solto. Lá vem pedrada no STF! As reformas estão sendo votadas pelo Congresso? Duelo de coxinhas e mortadelas! Teve greve geral na sexta. Melhor nem entrar no mérito. É tiro, porrada e bomba!

Embora a pensadora contemporânea Valesca Popozuda tenha nos deixado uma nobre lição — a máxima “late mais alto que daqui eu não te escuto” — , na internet não adianta aumentar o volume do latido. Pois o que sobra são pessoas pouco abertas ao diálogo e dispostas a entender contextos.

Falta algo que Rubem Alves chamou de “curso de escutatória”. Pois, segundo ele, no texto intitulado Você tem o dom de escutar: “nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade”.

É tanta gente “sentindo-se” formadora de opinião e de opinião formada a ponto de pifar a internet das coisas com suas frustrações, pensamentos ególatras e convicções. Gente de postura autoritária e gente soberba. Gente que acredita na verdade absoluta, desde que aquela seja a sua verdade, não a do outro. E gente que é tomada pelo instinto imediatista da internet, que se sente na obrigação de tomar partido sobre tudo um segundo depois que o fato acontece.

O que motiva a escrita destas linhas sobre a opinião alheia é um meme que surgiu em abril: a Universidade da Internet, criação de Leonardo Pacheco, advogado especialista em direito digital. Sua ideia foi a de distribuir diplomas aos sabichões que debatem temas complexos, mesmo sem propriedade ou qualificação para tanto.

Depois de ler os títulos ofertados, me encaixei em várias opções (as deixarei ocultas de propósito, para não depor contra mim).

No entanto, conforme lia as possibilidades, identifiquei facilmente vários dos meus contatos: doutores em segurança pública, em criar treta, em preconceito linguístico, modelagem de carapuça, políticas prisionais, propagador de notícias falsas, debate de gênero, ciências políticas, tucanagem, teorias conspiratórios e outros delírios.

Todos esses títulos estão disponíveis na Universidade da Internet, que, pressinto, ficaria mais rica se aos seus frequentadores ofertasse aulas ao estilo Lei da Web Limpa, Como controlar os impulsos e Aprecie de forma moderada.

Embora em tom de brincadeira, os diplomas fakes reafirmam a máxima de que as redes sociais são campos minados, de bolhas ideológicas, em que imperam a pós-verdade e a confusão entre os mundos físico e digital.

Ainda que um mês depois o meme seja quase uma peça de museu virtual, faltam paredes nas redes sociais para pendurar tantos diplomas, todos ilustrados com a frase de Raul Seixas: “eu quero dizer, agora, o oposto do que eu disse antes”.

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Publicado às 10 de maio de 2017 por em Opinião e marcado , , , .

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#piracicaba250anos #piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions!
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