Dando Nota

Rodrigo Alves

O ovo número 11

Publicado no Jornal de Piracicaba em 14 de abril de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Sempre fui uma criança paparicada na família. O excesso de mimo, no entanto, rendia certas birras. Até nas compras semanais no supermercado, deitava e esperneava para conseguir o que quisesse.

Por outro lado, a personalidade enérgica do meu pai sempre estava a postos para disciplinar as manhas, quando esgotavam as tentativas de convencimento materno.

Ambos, pai e mãe, tiveram infância difícil. Renunciaram ao estudo para ajudar a família no trabalho na roça. E por isso se preocupavam em recompensar o primogênito.

Recompensas que chegavam nas datas especiais. Brinquedos eletrônicos no aniversário, Natal e Dia das Crianças. E na Páscoa, tempo de chocolate, um ovo de deixar qualquer nutricionista de olhos estalados.

Nos anos 80, época em que fui criança, não existiam os ovos gourmetizados, com recheio de maracujá, nhá benta ou brinquedos dentro. Eram das marcas Lacta, Nestlé ou Garoto. Havia numerações, sendo o mais cobiçado o de número 23.

Acordava no domingo e lá estava ele: lindo, grande! O ovo de número 23. Antes de devorá-lo, era preciso ir à missa das 9h e receber as bênçãos do padre.

Bênçãos que não se concretizaram naquele ano, pois o ovo 23 não veio, mas sim um de número 11. Meus pais dizem que o presente foi um coelhinho de chocolate. As minhas memórias contrariam a tese.

Sem idade suficiente para entender a mudança, a minha reação não foi das melhores. Lasquei o ovo no chão. O fiz em pedaços. Pulei repetidas vezes sobre o doce.

Antes de encerrar os gestos, rapidamente vieram as chineladas. Não teve missa. Teve chocolate comido pedacinho por pedacinho, sob o olhar de repreensão. E teve choro engolido.

Os defensores da educação progressista insistem na tecla do diálogo com as crianças, enquanto os tradicionalistas são adeptos da boa palmada.

Fui criado na segunda alternativa, intercalada, nas ocasiões mais bruscas, com a temida varinha de marmelo. É da Páscoa a memória da primeira grande surra.

O que ficou daquela data levarei para a vida toda. Um número que simbolizaria tempos difíceis da economia, aperto financeiro familiar e a necessidade de aprender, desde criança, que a vida é feita de altos e baixos.

De lá para cá, tive muitos ovos número 23. Outras vezes foram ovos de número 11. Independente do tamanho, a partir da surra entendi o esforço dos meus pais em me presentear a partir dos recursos disponíveis.

Ainda hoje recordado na família entre muitas gargalhadas, o “ovo número 11” tornou-se uma expressão cotidiana para quando preciso respirar fundo, pensar três vezes, não explodir e entender a situação.

É quando também lembro que a vida é doce, que amar exige sacrifício e que os melhores presentes podem ser os menores.

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Publicado às 14 de abril de 2017 por em Opinião e marcado .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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