Dando Nota

Rodrigo Alves

Apropriação cultural

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 17 de fevereiro de 2017
Caderno Cultura – Página 2

A internet impressiona pela capacidade em brotar polêmicas. Desta vez é sobre apropriação cultural. Mulher, se for branca, não pode usar turbante, pois o acessório é restrito aos negros. Pausa para pensar. É sério isso?

A origem da discussão é Thauane Cordeiro, curitibana de 19 anos que descobriu um câncer há cinco meses. Para disfarçar a queda de cabelo, recorreu a um turbante. Enquanto estava num ônibus, ela teria sido hostilizada por uma mulher negra. Aí a moça foi no Facebook reclamar, lançou hashtag e tudo mais. O assunto bombou.

Determinados trajes podem — e provavelmente têm — um significado mais profundo. O turbante, neste caso, tornou-se um símbolo de resistência cultural e de luta pela reafirmação da mulher negra.

Mas será que Thauane quis se apropriar de uma cultura? Ou quis apenas disfarçar o que considera um problema, a falta de cabelo?

Ah, mas aí ela está querendo se colocar de vítima por estar doente. Ah, mas a culpa é dela se não sabe o significado histórico do turbante. Ah, mas ela poderia usar um lenço qualquer.

Embora a discussão não seja nova, Thauane, que se expôs por opção própria, foi atacada por uma legião de blogs e perfis nas redes sociais. Todos se resumindo a usar individualmente a situação, sem mencionar um detalhe básico: há toda uma indústria que se apropria das culturas e que permanece imune, quando deveria ser o centro das atenções.

É bem diferente se Thauane tivesse comprado a vestimenta na Colcci ou adquirido o acessório para ir a um baile à fantasia, o transformando em objeto de moda. Nenhum desses casos parece se aplicar à jovem curitibana, branquinha e de turbante. Só acho, não quero julgar a escolha dela.

Uma coisa é negar as mazelas sociais. Dar as costas ao preconceito, racismo, sexismo, machismo, homofobia, gordofobia e tantas outras fobias atuais. Mas essa discussão só reforçou a imagem do branco opressor e do negro oprimido, sem muito a acrescentar.

Nós, brasileiros, temos a apropriação das culturas em nossa origem. Fomos colonizados. Somos miscigenados. São tantas culturas juntas, se fundindo e se estabelecendo como sociedade. Uma se apropriando da outra, se misturando e coexistindo entre os signos.

Tendo a internet como porta de entrada, a geração mimimi está criticando demais, polemizando demais, brigando demais, sem propor novas soluções. Sem o aprimoramento do debate, a discussão se envereda por acusações que reafirmam a luta de classes, o preconceito e as diferenças. Logo, o que era para ser bom gera intriga e acusação leviana.

A minha intenção não é a de polemizar sobre a questão. Alguns dirão que, sendo branco, estou olhando o meu lado. Não é nada disso.

Apenas acredito que todas as culturas deveriam estar acessíveis. Que as trocas fossem naturais e espontâneas. E que o caminho natural seria a união e a celebração da diversidade, com a possibilidade de admirar sem necessariamente roubar ou se apropriar de algo.

Pois somos muito semelhantes em nossas diferenças!

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Publicado às 17 de fevereiro de 2017 por em Opinião e marcado , .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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