Dando Nota

Rodrigo Alves

Desumanidade virtual

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 de fevereiro de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Com a morte da ex-primeira dama Marisa Letícia, na semana passada, uma mensagem chamou a atenção na timeline do Facebook: “uma a menos para roubar o sofrido povo brasileiro”. O post dizia que a “fiel comparsa” de Lula deveria ter sido internada no SUS, que viveu e morreu no luxo e que até nos últimos momentos teve o direito a uma cama quente e aos melhores médicos.

O texto veio de um profissional da área de comunicação. Em tese, de alguém bem instruído e formador de opinião. Em tese, um profissional que deveria pensar duas vezes antes de proliferar o ódio. Ele dizia que a mensagem não era de sua autoria, mesmo sem atribuir a fonte, e que gostaria de dar um abraço em quem escreveu.

Encerrei a leitura da postagem e fui direto ao tópico “Denunciar”. É um procedimento usual, repetido sempre que uma notícia falsa aparece ou que contenha conteúdo preconceituoso. Para esse caso, a opção selecionada foi “assédio ou discurso de ódio em relação a um indivíduo”.

Passados 30 minutos, a resposta genérica chegou por e-mail: “agradecemos por nos avisar sobre isso. Examinamos a publicação e, embora ela não vá contra nenhum dos nossos Padrões da Comunidade específicos, você fez a coisa certa ao nos avisar sobre ela. Sentimos muito por você ter passado por essa experiência.”

O Facebook trouxe ainda algumas recomendações, entre elas:

— Remova a pessoa de sua experiência do Facebook.

— Não revide. A maioria das pessoas que publica insultos está procurando reação. Portanto, não revidar desencoraja esse tipo de comportamento no futuro.

— Se você sente que trata-se de um caso de perigo imediato, entre em contato com as autoridades locais. Você pode imprimir ou fazer capturas de tela de publicações, caso precise compartilhá-las posteriormente.

A frustração é que o próprio Facebook parece desrespeitar sua Política de Padrões da Comunidade: “permitimos discussões abertas e críticas sobre pessoas que são noticiadas na mídia ou que possuem um público mais amplo devido à profissão ou às atividades de sua escolha. Removemos ameaças reais feitas a figuras públicas, bem como discursos de ódio direcionados a elas, assim como fazemos com indivíduos privados.”

Um amigo disse que a notícia da morte da Marisa Letícia já embrulhou peixe e que seria antiga para ser tratada nesta coluna, quase uma semana depois. Apenas achei interessante refletir sobre a postagem, que representou, para mim, um discurso de ódio.

Que fique bem claro: essa não foi a única postagem sobre a morte de Marisa Letícia. Teve gente que decretou sua partida antes dos próprios médicos, teve médico vazando prontuário pelo WhatsApp, teve grito de Fora Temer em frente ao hospital, um lugar de silêncio, teve gente dizendo que Marisa estava viva na Itália e teve até transmissão ao vivo do velório em TV e internet. Para todos estes tópicos, manifesto minha discordância, como também descarto a possibilidade de excluir a pessoa da rede social, como recomendou o Facebook.

Tem uma frase recente, atribuída ao filósofo pop Leandro Karnal: “sentir felicidade pela morte de alguém torna pública sua desumanidade.” Prefiro pensar nessa direção, pois qualquer morte, seja de uma figura pública ou não, merece o silêncio, o luto. Vale também para a doença. Respeito, acima de tudo. É o velho ditado: “colocar-se no lugar do outro faz do mundo um lugar de todos”.

Eu poderia agora evocar Zygmunt Bauman e os conceitos da fluidez do mundo líquido para falar sobre o que considero como desumanidade virtual, mas persistem os versinhos de Fita Amarela: “quando eu morrer, não quero choro nem vela…”.

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Publicado às 10 de fevereiro de 2017 por em Opinião e marcado , , , , .

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