Dando Nota

Rodrigo Alves

Ao pé da letra

 

Caricatura de Maria Luziano/Jornal de Piracicaba

Caricatura de Maria Luziano/Jornal de Piracicaba

Publicado no Jornal de Piracicaba em 27 de janeiro de 2017
Caderno Cultura – Página C2

A cantora Madonna recebeu severas críticas em função do discurso contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proferido durante a Marcha das Mulheres, em Washington. Em um momento acalorado, ela disse ter pensado em “explodir a Casa Branca”.

Episódio semelhante envolveu a atriz Meryl Streep, em janeiro, que falou da demonização dos estrangeiros nos Estados Unidos e se posicionou contra Trump, sem citar o seu nome. Muito elogiada, a fala repercutiu mais que o próprio resultado do Globo de Ouro, cerimônia que serviu de palco para a atriz.

Meryl, ironizada por Trump como “gente liberal do cinema”, não desceu do salto. Fez cara de planta e preferiu o silêncio. Agiu da mesma forma com as pessoas que utilizaram a internet para lhe taxar de demagoga, ao contrapor a argumento de que o combate à migração não afeta os poderosos e endinheirados astros de Hollywood, mas apenas os “mortais ilegais” abrigados no lar de Tio Sam.

No caso de Madonna, a internet foi além. As pessoas exigiram investigação por ameaças terroristas e classificaram o pronunciamento como uma clara incitação ao ódio. A intérprete de Like a Virgin teve que ser didática na sua conta no Instagram: “Não sou uma pessoa violenta. Usei uma metáfora e compartilhei duas maneiras de ver as coisas — uma era com a esperança e a outra era com raiva e indignação, o que eu realmente sinto”.

O que mais irritou o público em geral parece ter sido o palavrão. Não foi apenas um, claro, ainda mais vindo de Madonna, sempre habituada a lidar com as polêmicas desde o início de sua carreira e a gerar sabiamente muitas outras. Gente que de certa forma repete as mesmas palavras no trabalho, para a família e filhos, mas as consideram chulas quando pronunciadas em público da boca de uma celebridade.

Embora nada sutis, os palavrões de Madonna são sinais de descontentamento com a postura autoritária de Trump. Seria tão mais fácil olhar para o restante do conteúdo, que enfatizou uma nova era de tirania e os perigos às mulheres e aos marginalizados. “Bem-vindos à revolução do amor, à rebelião. Onde pessoas singularmente diferentes podem ser consideradas um crime”, declarou a cantora.

Tanto Madonna, quanto Meryl, foram as cobaias da vez da internet. Da geração de leitores automatizados dos feeds das redes sociais, dos que se satisfazem com as chamadas curtas e os vídeos relâmpagos. Gente que se sente imune na tela de cristal líquido e aproveita do aparente conforto virtual para criticar, detonar e distorcer os fatos, a partir de convicções próprias ou emprestadas.

Só que, desta vez, o “Tribunal do Feicebuqui” — parafraseando Tom Zé — teve que engolir a seco a justificativa de Madonna, por ser incapaz de entender as ironias e as metáforas. Que leva tudo ao pé da letra, sem ler as entrelinhas dos discursos, sem interpretar frases completas e sem analisar o contexto, pensando tão somente dentro da caixa, em vez de fora, como exigem vários contextos. É nestas horas que, em vez de “escolher o amor”, como fez Madonna em seu discurso, prolifera-se o ódio e permanecem fortalecidos tiranos como Donald Trump.

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Publicado às 27 de janeiro de 2017 por em Opinião e marcado , , , , .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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