Dando Nota

Rodrigo Alves

A lição do Mestre Paiva para 2017

mestre-paiva

Publicado no Jornal de Piracicaba em 6 de janeiro de 2017
Caderno Cultura – Página 2

Promessa de Ano-Novo, entre as sete ondinhas no litoral paulista: conhecerei Ouro Preto este ano. Pedido mentalizado, feito ao lado de amigos, à meia-noite de 2014 para 2015. Desejo postergado, mas concretizado no último réveillon.

A minha frustração era grande. Sendo mineiro, nunca visitei uma das principais cidades do meu Estado. Ficava roxo de vergonha ao falar de Inconfidentes, minha cidade natal, e as pessoas logo remetiam a Ouro Preto. Algo justificado pela distância, de 550 quilômetros.

Não gosto de dirigir. Um tanto cegueta, nunca fui de encarar a estrada em viagens longas. Mas, desta vez, tive coragem. Calibrei os pneus e tracei a rota no GPS. Encarei o desafio no melhor estilo off-road. Segui pelas rodovias MG-290 e MG-381, entre curvas e estradas esburacadas.

Em Ouro Preto, explorei ao máximo os atrativos. Conheci sete das 13 igrejas, a tradicional Praça Tiradentes, os museus de arte sacra e, claro, os restaurantes de comidas típicas, dos baratex aos requintados. Saldo de 800 fotografias, num período de seis dias, e alguns quilinhos a mais.

Mas é de Mariana, a primeira Vila da Capitania de Minas Gerais, que retorno com as melhores lembranças, e uma grande lição de vida.

Embora tenha ido ao pequeno município no trem turístico, fiz o trajeto de volta de ônibus circular. Em pé, tentando me equilibrar no corredor e diante de uma bilheteira sem paciência com turistas, conheci José das Mercês Paiva, um grande escultor da região, popularmente chamado de Mestre Paiva.

De forma espontânea, Mestre Paiva começou a responder minhas dúvidas. Falava com tanta propriedade que até poderia ser um guia turístico. Aos poucos, descobri seu vínculo com a arte. A conversa ganhou outro rumo.

Mestre Paiva dedica-se ao entalhe desde 1983, quando tinha 24 anos. A paixão pelas esculturas em madeira falou mais alto que a contabilidade. Suas peças integram acervos particulares no Japão, Espanha, França, Itália, Portugal e Alemanha. Mesmo assim, permanece parte do seu tempo numa sala no subsolo da Casa de Câmara e Cadeia de Mariana, local que abrigou uma senzala para escravos e funcionou como primeira sala de fundição de ouro.

Com uma revista embaixo do braço, ele me mostrou uma reportagem sobre o seu trabalho, além de algumas fotografias, das principais peças produzidas. Também falou das inspirações nos mestres Aleijadinho, Francisco Xavier Brito e Antonio Francisco de Lisboa, e da preocupação em manter a originalidade, o que diferencia a sua obra, no estilo neobarroco mineiro.

Artista autodidata, Mestre Paiva enumerou colegas, discursou sobre a importância da preservação da história e ainda fez um apelo para que a atual geração olhe para o passado de escravidão do país e não cometa os erros do passado, que apenas separaram os povos e frearam o crescimento do país.

Ao final do trajeto de 30 minutos, Mestre Paiva estendeu a mão direita, toda calejada, e me cumprimentou. Lembrou que os anjos são suas peças preferidas, pois levam a mensagem da paz, alegria e prosperidade.

Segui no ônibus, ainda em pé, com a cabeça longe. Lembrei dos ególatras que cruzaram o meu caminho, que puxam o tapete do outro, que se acham o rei da cocada preta, a última bolacha do pacote. Gente que, no fundo, produz uma arte vazia, sem substância, sem conteúdo, sem qualidade.

O brilho nos olhos daquele artista, no último dia de 2016, serviu de lição para o ano que começa com vários desejos, especialmente o de cruzar com mais pessoas humildes e apaixonadas, que produzam uma arte de encantamento, transformadora, e que exerçam seus ofícios com a mesma paixão de Mestre Paiva.

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Publicado às 6 de janeiro de 2017 por em Opinião e marcado , , , , , .

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