Dando Nota

Rodrigo Alves

O Natal do Marcelino

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 23 de dezembro de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Eu disse que estava com preguiça no meu texto semanal para o Jornal de Piracicaba, na última sexta-feira. Que estava sem paciência para textão. Pois bem, já não estou mais. E meu humor oscilou na mesma data em que o artigo saiu nesta página, só para constar.

É que na mesma data, dia 16, bem no início da tarde, encontrei seu Marcelino, natural de Santa Maria da Serra e que vive no Lar Betel, ao lado de 86 idosos assistidos pela instituição, na Vila Independência.

Conheci seu Marcelino pelo Facebook, na campanha Adote um Sonho de Natal, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, meu local de trabalho há 5 anos.

Seu Marcelino segurava uma lousa e em giz estava escrito o seu desejo de Natal: “quero ganhar um rádio”. Como jornalista, me senti tocado. Adotei o sonho de Natal do seu Marcelino.

Comentei com uma amiga, também jornalista, que fez algumas recomendações sobre o presente: deveria sintonizar AM e FM, funcionar com pilha e na energia elétrica. E que não fosse extremamente tecnológico, pois alguns idosos têm dificuldade de lidar com o mundo digital.

Corri pelo comércio atrás de um rádio que fosse a cara do seu Marcelino. Missão complicada. Não poderia ser um radinho que quebrasse fácil, nada que parecesse item do Paraguai. E ainda que cumprisse as exigências acima.

Depois de cinco lojas percorridas na rua Governador Pedro de Toledo, eis que encontro o rádio. Paixão à primeira vista. Lindo. Três botões, todo retrô. Pedi para embrulhar e depositei o presente na recepção da Câmara, com o nome do Marcelino, para que os responsáveis pela campanha o entregasse.

Dias depois, o destino me pregou uma sorte: estava escalado para cobrir a entrega no Lar Betel. Tão logo recebeu o presente, Seu Marcelino seguiu para o quarto, que divide com mais duas pessoas, e eu fui atrás, para conversar com ele e conhecer sua história.

Enquanto desembrulhava o presente, sem que sequer perguntasse, ele me disse ser descendente de índios e que possui apenas uma irmã, também idosa. Na sequência, disparou: “Nunca ganhei um presente de Natal”, sem disfarçar as lágrimas no rosto, que também foram minhas.

Para o azar do seu Marcelino, o rádio funcionou alguns dias na energia elétrica, pois o Rodrigo, desatento como sempre, comprou as pilhas no tamanho errado. Como eu me comprometi a comprar outras, fui pessoalmente entregar e novamente ver o Seu Marcelino para lhe dar outro abraço de Natal. Fui recebido com um sorriso no rosto e “não precisava se preocupar”.

Apesar de ter sido uma “tarde com 87 sorrisos”, cheguei em casa com um nó na garganta e várias interrogações. Que futuro queremos para nós mesmos? Qual o valor de um presente? Como será minha vida, a dos meus familiares e amigos na terceira idade? Como será esse Brasil, sem aposentadorias, e sem um governo que olhe para os idosos?

Tive um dia feliz, mas saí do Lar Betel triste. Tantas perguntas sem respostas. Tantos Marcelinos esquecidos nesse mundão velho sem porteira. Tanta gente carente, à espera de um presente, de um abraço, de uma visita, de alguém para ouvir, mesmo que por alguns minutos, sua história. Tantos Natais passados em branco, sem ao menos receber um telefonema de um familiar.

Resolvi compartilhar este testemunho, por ter sido a primeira campanha de Natal que participo. E para, quem sabe, outros lares de idosos (e crianças também) recebam iniciativas voluntárias (não apenas nesta época do ano). Não há preço para um sorriso no rosto.

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Publicado às 23 de dezembro de 2016 por em Opinião e marcado , .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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