Dando Nota

Rodrigo Alves

O Processo

3

Publicado no Jornal de Piracicaba em 2 de dezembro de 2016
Caderno Cultura – Página 2

“Este processo garante que apenas 3% tenham acesso ao Maralto. Aconteça o que acontecer, você merece!”.

A frase abre a primeira série original brasileira na Netflix, 3%, disponível desde a última semana no serviço de streaming. Assisti a dois dos oito episódios, na torcida para me apegar ao roteiro, que discute a meritocracia e a segregação no país, com ares do romance 1984, de George Orwell.

Em síntese, a série traz a história de jovens de 20 anos, moradores do Continente, lugar decadente, miserável e corrupto, que têm a chance de migar para o Maralto, uma espécie de terra perfeita. Antes disso, precisam passar pelo Processo, uma seleção rigorosa, baseada em provas físicas e psicológicas, que garante apenas 3% de aprovação.

3% não traz em seu roteiro qualquer parlamentar brasileiro, da Câmara dos Deputados ou do Senado, mas poderia empregar, em um dos capítulos, o deputado federal que declarou “quem não tem dinheiro não faz faculdade”.

3% diz respeito também a Jair Bolsonaro, deputado e virtual candidato à presidência, que em pleno exercício de uma função pública declarou em plenário à colega Maria do Rosário: “só não te estupro porque você não merece”.

Os 3% do Maralto são os congressistas, eleitos pelo voto, de olhos tapados para os anseios sociais e que empenham a bandeira da “em nome de Deus e pela família brasileira”. Os que se reúnem na calada da noite para votar um pacote anticorrupção, em prol de si próprios.

3% remete a tristes estatísticas, como a de que o Brasil é o pior país na América Latina para ser menina, na 102ª posição entre 144 países avaliados pela ONG Save The Children, com números elevados de gravidez precoce, mortalidade materna e analfabetismo.

3% (ou 5%, em dados reais) é a parcela que detêm 28% da renda e do patrimônio do país, de acordo com levantamento da Receita Federal nas declarações de imposto de renda emitidas pelas pessoas físicas. Estes, certamente, gozam das regalias do Maralto, mesmo sem passar pelo Processo.

O Brasil dos 3%, aquele que não está no seriado, é aquele em que um deputado custa R$ 1 bilhão por ano ao contribuinte, enquanto um professor trabalha 40 horas semanais para ter o salário-base de mil reais.

3% são os estudantes brasileiros, que ocuparam suas escolas por não engolirem uma reforma no ensino, de cima para baixo.

Os 3% do Maralto, jovens de 20 anos, empregam fortemente o lema “quem acredita sempre alcança”, cantado por Renato Russo em Mais uma Vez. E, na vida real, há os que adotam o discurso como mantra, tentando institucionalizá-la nas iniciativas privada e pública.

Basta correr atrás? Batalhar para conseguir? É certo crer, ainda, que as pessoas conquistam seus objetivos apenas por mérito, independente das externalidades? Você, que só frequentou escolas públicas, que trabalhou e pagou pela faculdade, ainda acha que terá as mesmas oportunidades no mercado de quem teve escolas particulares e universidades públicas?

A lógica da meritocracia está enraizada até na Constituição Federal, ao estabelecer, em 1988, a promoção do bem de todos, sem discriminação de qualquer natureza, e a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, livre da pobreza e da marginalização.

Embora se venda como uma ficção científica sobre o “Brasil pós-apocalíptico”, 3% convida o espectador a viver um futuro que já é presente. E a relembrar as 97% das vezes em que o Estado se mostra incapaz de viabilizar a igualdade de oportunidades aos indivíduos e que alimenta a distopia, o autoritarismo e a repressão.

O Brasil da política bipolarizada, de pobres e ricos, governantes e a população, é o mesmo Brasil da série 3%, dividido em Continente e Maralto. Você acha mesmo que tem chances de passar pelo Processo?

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Publicado às 2 de dezembro de 2016 por em Opinião e marcado , , , .

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