Dando Nota

Rodrigo Alves

Aquarius, uma obra política

aquarius

Publicado em 23 de setembro de 2016
Página 2 do Caderno Cultura

Atraído pelo burburinho recente sobre o filme Aquarius, fui assistir à produção protagonizada por Sônia Braga sem, no entanto, esperar muita coisa. Saí do cinema com a satisfação de presenciar um enredo simples, forte e que remete a um dos muitos problemas brasileiros.

“Quando você gosta é vintage, quando você não gosta é velho!”, diz, em determinado trecho do filme, a personagem Clara, que mora no Recife e sofre forte pressão, entre ameaças e assédios, para a venda o apartamento, no Edifício Aquarius, onde viveu boa parte de sua vida.

As cenas nos apresentam, aos poucos, a história da crítica de música e jornalista aposentada de 65 anos. Uma mulher madura, independente, que criou os três filhos e mantém os laços afetivos com a sua casa.

No desenrolar da história, o espectador cria empatia com a protagonista e ao mesmo tempo é induzido ao amargo questionamento: tem preço a memória? É possível quantificar o valor de uma fotografia emoldurada na escrivaninha, o disco empoeirado na estante e a rede montada na sala, de frente para o mar?

E quando tratam-se de imóveis, que podem ser demolidos do dia para a noite? Basta recolher as roupas das gavetas e seguir em frente, para outro endereço, trilhando uma nova vida? É tão simples deixar as memórias para trás?

Diferente de blockbusters, o filme de Kléber Mendonça Filho não exalta uma única mulher ou tem a função de criar uma heroína. Sem apelar para o saudosismo, aponta para o cotidiano com uma narrativa um tanto singela, voltada para a resistência diária de pessoas comuns, nem sempre notadas, e para a convivência hipócrita (e silenciosa) entre classes sociais do país.

Clara é vítima da especulação imobiliária e de um fenômeno recente, a gentrificação, termo derivado do inglês que, entre os vários significados, denota o aburguesamento das áreas nas grandes metrópoles.

A batalha de Clara remete, inevitavelmente, ao drama do Teatro Oficina Uzyna Uzona, no tradicional bairro do Bixiga, na região central de São Paulo. Há pelo menos 20 anos o diretor Zé Celso Martinez Corrêa luta com o Grupo Silvio Santos, que quer construir torres no terreno onde está o teatro.

A mesma situação enfrenta o Recife, cidade onde o filme Aquarius é rodado. Desde 2012, a população se mobiliza contra um empreendimento imobiliário de luxo que pretende erguer 12 torres de 40 andares na região do Cais José Estelita.

O filme traça um olhar sobre a disputa entre o novo e o antigo. Sobre a memória afetiva dualizando com o progresso. Não é uma obra isolada no espaço, nem no tempo. É uma representação do momento atual.

Um lado defende a diversidade artística e cultural, o patrimônio imaterial e a preservação do tecido urbano e social. O outro prega a modernidade, o avanço e a construção, sob do argumento da requalificação do espaço urbano.

Não é uma obra-prima do cinema nacional, mas é um produção sobre como lidamos com a memória afetiva. A nossa memória, individual, a memória dos outros e também a memória coletiva. É um filme sobre as cidades que construímos sem memórias.

Político e combativo sem ser panfletário, Aquarius é um filme sobre as cidades que não enxergam os indivíduos como elementos humanos. Sobre a desvalorização brutal dos modos de vida. Sobre a resistência dos que trabalham para preservar a memória e sobre os que chegam com “sangue nos olhos” para destruí-la.

Em tempo: aos que estão em dúvida entre assistir ou não a produção nos cinemas, a minha sugestão é correr, pois ainda dá tempo. É preciso fazer justiça. A produção permanece em cartaz pela segunda semana em Piracicaba.

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Publicado às 23 de setembro de 2016 por em Opinião e marcado , , , .

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