Dando Nota

Rodrigo Alves

Yes, we can!

midia-ninja

Publicado no Jornal de Piracicaba em 16 de setembro de 2016
Caderno Cultura – Página 2

“– Qual é o motivo? Qual é o motivo?”, brada uma senhora de meia-idade. Ela está num dos locais mais conhecidos de São Paulo, a avenida Paulista, coração de protestos políticos nos últimos três anos.

A indignação da mulher ganhou destaque na página Democratize, dia 11, num vídeo que acompanha um grupo de jovens sendo abordado violentamente pela PM. Na sequência, spray de pimenta é utilizado e pessoas são algemadas. As imagens receberam 210 mil visualizações e 4.500 compartilhamentos.

Oito dias antes, o senador Lindberg Farias dá seu depoimento, durante um ato no Largo da Batata. Bombas de gás lacrimogênio e uma correria generalizada acontece na sequência, tudo registrado em vídeo, na página Jornalistas Livres, com 330 mil visualizações e quase 20 mil compartilhamentos.

Ainda em setembro, a Mídia Ninja entra ao vivo, do Deic, para denunciar a prisão de 26 pessoas na capital. Um advogado fala sobre a incomunicabilidade de familiares e representantes legais. Dias depois, novas gravações acompanham a soltura dos manifestantes e o depoimento da jovem Sofia sobre os momentos de tensão.

Democratize, Jornalistas Livres, Mídia Ninja, A Luta, Caneta Desmanipuladora e outras páginas têm sido protagonistas nas denuncias às ações arbitrárias de policiais e detentores do poder. Dão, em tempo real, a função ativa ao espectador.

Muito se falava, em meados de 2004, da web 2.0, uma nova internet. Chegaram os blogs, o Orkut (já finado), o Google, a Wikipédia, os mensageiros instantâneos, o Facebook e outras redes sociais, cuja principal (r)evolução foi a de colocar em xeque o modelo hegemônico de mídia, detentora da decisão do que é ou não notícia a partir de linhas ideológicas e interesses políticos e/ou empresariais próprios.

A Pesquisa Brasileira de Mídia demonstra, desde 2014, que o Facebook já aparece em primeiro lugar para o consumo de notícias no país. A própria Mídia Ninja, sem uma grande estrutura e financiamento fixo, superou recentemente a Revista Veja, Estadão, Folha, Carta Capital e o Globo no engajamento de público, sem recorrer às publicações patrocinadas.

É óbvio que a web evoluída produz discrepâncias. São incontáveis as inverdades e factoides, muitos desmentidos pelos tradicionais jornais, TVs e rádios. Mas o jornalismo colaborativo da Mídia Ninja, por exemplo, contesta a desinformação promovida por grandes grupos, até então detentores do monopólio da notícia, e ainda coloca o cidadão como produtor e difusor da informação.

A valorização do jornalismo colaborativo é um indício de que o público está mais preocupado com o conteúdo do que com a qualidade do produto final. Há imagens tremidas, e daí? Estão escuras, mas qual o problema? Elas chegaram, afinal, aonde a mídia tradicional foi capaz de produzir, no máximo, uma imagem aérea.

Esse novo jornalismo, no modelo open source e sem consultar o outro lado, evidencia ainda a visão de que não existe verdade absoluta quando o produto é a informação. Cada um escolhe a versão que mais lhe convém, numa sociedade bipolarizada, rotulada como “coxinha” e “mortadela” e configurada politicamente como uma partida futebolesca ao estilo Fla-Flu.

Desafiados nos últimos tempos, os meios tradicionais de comunicação lutam para reconquistar uma fatia considerável do mercado e reconectar-se com a geração digital, que ocupou a internet e a transformou num espaço de colaboração e ajuda mútua, de narrativas independentes. Ou, nas palavras do camarada Obama, Yes, we can!

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Publicado às 16 de setembro de 2016 por em Opinião e marcado , , , .

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