Dando Nota

Rodrigo Alves

Somos todos naïfs

bienal-naifs-2016-piracicaba

Publicado no Jornal de Piracicaba em 26 de agosto de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Aberta na sexta-feira, 19, a 13ª Bienal Naïfs vai além e aquém dos traços delicados e ingênuos pelos quais a modalidade artística é tradicionalmente associada. Espalhadas por diversos ambientes do Sesc Piracicaba, as 185 obras em exposição possibilitam que o público perceba uma arte sem redomas, numa espécie de revisão de conceitos.

A escolha de um título pela equipe curatorial é provocativa: “todo mundo é, exceto quem não é”. Traz, além de um peso maior para a mostra, um instigante desafio, contido nas entrelinhas: o que é, de fato, o naïf dos tempos atuais? Mais que os tradicionais óleo e a acrílica sobre tela, suportes tão comuns a este tipo de arte, estão a fotografia, o bordado, a encáustica e a sucata. Percorrendo a mostra, novas referências e descobertas são apresentadas também nas xilogravuras e nos trabalhos em madeira.

“É? Ou não é?”. Fiz essas duas perguntas diante de vários trabalhos, tanto os selecionados, quanto os convidados: no abstrato painel em óleo sobre madeira da carioca Cristina Canale, denominado O jardim é o lugar da serpente, no conjunto de seis obras do potiguar Marcelo Gandhi, nas fotografias Residem em São Paulo e Zum Somos Nós, do coletivo paulistano Frente 3 de Fevereiro, entre outras, em especial as fotográficas de Delson Uchôa, artista de Maceió.

É um caminho totalmente distinto do que já foi apresentado até agora, se resgatarmos a edição 2012, com foco na fusão do contemporâneo com o ingênuo, a de 2014, do universo naïf aproximado da fotopintura, e a de 2010, de forte destaque para as instalações. Mas a escolha, ainda que ousada, se harmoniza e dialoga com o todo da exposição e, como função da arte, vai além do contemplativo, numa verdadeira ruptura de modelos preestabelecidos.

Para além da visita presencial, o Sesc disponibilizou no YouTube uma série de sete vídeos, que colabora para o aprofundamento sobre a definição da 13ª Bienal Naïfs. O primeiro vídeo é composto por relatos dos curadores Clarissa Diniz, Claudinei Roberto da Silva e Sandra Leibovici, e os demais trazem os artistas Marcelo Gandhi, Rosana Paulino, Raquel Trindade, Eduardo Ver, Wagner Luiz da Cruz (Índio) e Laércio Ferreira.

Aliás, as peças de Laércio Ferreira, artista de Piracicaba, nos levam a outro apontamento sugestionado pelos curadores: o papel do negro e do indígena na arte naïf. As obras O casal de pretos velhos, O caçador e Índio Atirando flecha são inspiradas na cultura africana. Seguem a mesma linha o também piracicabano Stevenson Moschini, em África unida II, o carioca Paulo Perdigão, nas esculturas em madeira Os Sambistas, e a paulistana Rosana Paulino, na obra Ama de Leite, em terracota, fita de cetim e plástico.

Complementando a visão de que o artista naïf é um “retratista” do bucólico, a questão política está muito forte na bienal, representada pelo caos urbano das capitais, por manifestações artísticas como o funk, pelo engajamento social contra a intolerância, a poluição e pela melhoria da educação, além da crise política recente, o escândalo na Petrobrás, o desastre ecológico provocado pela mineradora Samarco e as faixas e manifestações populares nas ruas.

É claro, com uma boa mostra sobre a “arte ingênua”, o retrato pitoresco do cotidiano permanece muito forte nos traços sobre a convivência do homem com o campo, os animais e os insetos, a pesca, a religiosidade e as danças folclóricas. Mas, acima de tudo, a 13ª Bienal Naïfs se caracteriza como um rico recorte da cultura brasileira, sempre múltipla e diversificada, em que todos se sentem naïfs, mesmo os que não são.

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Publicado às 26 de agosto de 2016 por em Opinião, Piracicaba e marcado , , , , , .

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