Dando Nota

Rodrigo Alves

Colocar-se no lugar do outro

receituario

Publicado no Jornal de Piracicaba em 5 de agosto de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Dois episódios recentes despertaram debates nas redes sociais. No primeiro, um médico de Serra Negra demonstra seu preconceito linguístico ao referir-se a um paciente com as palavras “peleumonia” e “raô xis”. No outro, MC Biel, de 21 anos, é acusado de postar na internet conteúdos racistas, machistas e de caráter homofóbico.

Ambas as situações me remeteram a um fato que caiu no esquecimento, de 2014, de uma professora universitária da PUC-Rio que ironizou a roupa de um homem no aeroporto, de camiseta regata e bermuda, identificado depois como advogado.

Tanto o médico, quanto a professora, sofreram consequências. Ela foi afastada da coordenação da sua universidade e ele desligado do hospital em que atuava, além de responder a uma sindicância. E quanto ao cantor Biel? Teve, no máximo, o cancelamento do seu show na Olimpíada.

Em junho, a jornalista Giulia Pereira, do portal IG, denunciou o MC por assédio sexual. Dez dias depois foi demitida. Quando o assunto parecia esfriar, o garoto acusou a repórter de prejudicar sua carreira. O público não deixou barato e resgatou os tuítes polêmicos do MC.

Biel, acreditando na impunidade do ambiente virtual e usufruindo dos benefícios da suposta fama, se vê no direito de alimentar a violência à mulher, o nojo aos travestis, o racismo descarado e a falta de respeito aos idosos. O médico e a professora demonstraram reações classistas, como se o diploma de nível superior lhes credenciasse para tanto.

Eu até reconheceria os esforços públicos do médico, ao postar uma foto ao lado do paciente e anunciar trabalho voluntário numa ONG. Mas, num vídeo de seis minutos, pediu desculpas até a página 2: “é preciso dar risada”, disse, numa clara referência ao ambiente tenso da medicina.

As agressões de Biel, a arrogância da professora universitária e a “brincadeira” do jovem médico dizem respeito a mim, como brasileiro, aos meus familiares, aos meus amigos e colegas do trabalho. Também desrespeitam a você.

Quantos, em suas famílias, têm acesso à universidade? Quantos têm avós ou pais iletrados, que abandonaram a escola para trabalhar na infância? Quantos, sem frequentar a escola, pronunciam peleumonia para pneumonia e raô xis para Raio-X? E quantos dos intelectuais e gente que se diz esclarecida cometem erros terríveis, não apenas de português? Esse é o retrato do nosso Brasil e não pode diminuir o ser humano.

Há uma campanha sendo veiculada no canal GNT, do movimento global Eles por Elas (HeForShe), com a seguinte mensagem: “colocar-se no lugar do outro faz do mundo um lugar de todos”. Esta é uma boa lição, pois canudo universitário, bata branca e fama não representam nobreza. Um médico, no pleno exercício social de sua profissão, deve no mínimo se sensibilizar com a dor do outro, e não fazer dela uma piada.

Se as redes sociais foram fundamentais para combater tais práticas, o que já é um grande avanço, eu me pergunto por que, no dia a dia, várias formas de preconceito permanecem materializadas e como existem, ainda, os que as disseminam.

Pode parecer uma viagem, mas só encontro a resposta no passado, ao folhear o livro O Povo Brasileiro — A Formação e o Sentido do Brasil, em que Darcy Ribeiro, ao tratar da gênese da identidade nacional e do povo massa, sofrido e perplexo, nos lembra que a mais terrível das heranças dos “brasilíndios” é a de levar a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. E que a doçura mais terna e a crueldade mais atroz se conjugam, para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos, e a gente insensível e brutal, que também somos.

Um comentário em “Colocar-se no lugar do outro

  1. Ivana Negri
    5 de agosto de 2016

    É isso mesmo Rodrigo!
    Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você. Essa regra deveria ser seguida à risca. Todo mundo já se sentiu constrangido ou discriminado por diversas razões. Não só por homofobia, machismo ou racismo, mas muitas pessoas são discriminadas por seus credos, por votarem num ou outro partido, por serem gordas, magras, até por serem vegetarianas/veganas.
    E para quem se preocupa com o sofrimento dos animais – logo aparece o dedo apontado: “ por que não dedica seu tempo a crianças ou idosos em vez de se preocupar com animais?”
    Portanto, fica a dica: RESPEITO !

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 5 de agosto de 2016 por em Opinião e marcado , , , , , , .

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