Dando Nota

Rodrigo Alves

Pira in Campos

Publicado no Jornal de Piracicaba em 15 de julho de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Sábado, 9, meu destino é Campos do Jordão, badalada nas férias de julho em função do Festival Internacional de Inverno. Na última ida ao evento, em 2009, permaneci por alguns dias, como enviado especial deste periódico, para a cobertura jornalística das atrações e na intenção de ouvir relatos de instrumentistas piracicabanos nas programações artística e pedagógica.

O jornalismo novamente me conduz ao local, só que desta vez de uma forma bem diferente. A permanência é curta, no esquema bate e volta, sem a obrigação de captar histórias e a pressão por encontrar personagens interessantes para a produção de uma matéria especial. A agenda é certa: a primeira apresentação da Orquestra Sinfônica de Piracicaba (OSP).

Já na Praça do Capivari, no Centro da cidade, acompanho a movimentação dos instrumentistas da OSP na concha acústica montada especialmente para os concertos ao ar livre, uma das apostas dos organizadores da 47ª edição do festival.

A passagem de som está prevista para as 15h, mas antes disso parte do público se posiciona. São mil cadeiras disponíveis. O movimento aumenta, tão logo surgem os primeiros acordes, mesmo não sendo o concerto oficial. O sol toma conta da praça, sem a presença de nuvens.

À frente do palco está Jamil Maluf, piracicabano que desde o ano passado assumiu a direção artística e a titularidade da regência do conjunto sinfônico. Ao seu lado está o solista Fábio Peron, que passa as instruções aos técnicos: “–Um pouco mais de volume. Menos grave, por favor! Talvez um pouco de agudo… estou sem retorno…”.

Começa o ensaio. Com dois minutos da primeira música, no máximo, vem a primeira interrupção. A plateia, agora em volume maior, aplaude. O maestro sorri. E lembra aos “adiantadinhos”: são apenas ajustes técnicos e não a apresentação oficial. As pessoas permanecem. Retribuem com mais aplausos.

Pontualmente, às 16h30, As Danças Sinfônicas de Grieg embalam o público. Todas as poltronas estão ocupadas. Quem não garantiu um lugar permanece em pé nas laterais e na parte de trás da Praça do Capivari. Há os que se esforçam para acompanhar mais ao fundo, embaixo dos toldos das cafeterias e lojas de chocolates. O sol, antes incômodo, dá uma trégua. Os termômetros anunciam 14 graus, temperatura relativamente alta para o inverno daquela cidade.

Peron entra meia hora depois. Traz ainda mais empolgação. Apresenta quatro canções de sua autoria, sob o olhar atento da arranjadora Lea Freire. As pessoas se surpreendem com a agilidade e expressividade do bandolim de 10 cordas aliado aos instrumentos da orquestra. Reagem com sorrisos, dançam nas cadeiras, gravam as cenas nos celulares. Ao final, não se contentam com apenas um bis.

Assisti ao mesmo concerto há quase um mês, quando a OSP o apresentou no Teatro do Engenho, em duas sessões lotadas. Surpreendeu-me, porém, a distinção das apresentações, ainda que o repertório tenha sido o mesmo.

É difícil sintetizar em palavras a magia de uma apresentação ao ar livre, entre crianças com algodão doce, tiozinhos com lata de refrigerantes nas mãos, senhorinhas apoiadas nas árvores e os baixinhos nas pontas dos pés, tentando encontrar o melhor ângulo para ver o desempenho dos músicos.

Saí de Campos do Jordão recordando uma frase de Villa-Lobos, a de que a música é tão útil quanto o pão e a água, e feliz por saber dos esforços de um incansável maestro, da compreensão dos órgãos públicos e também das empresas que abraçaram o projeto da OSP desde o ano passado. Eles fazem valer a máxima dita por Beethoven: “devemos dedicar o melhor de nossos esforços para atingir o inatingível e nunca parar de aprender.”

Ainda que estas palavras tenham sido expressadas por alguém que se empenha profissionalmente na divulgação da nova fase da OSP, a ida de Piracicaba a Campos do Jordão reafirma o sentimento de muitos piracicabanos: a de ter, finalmente, uma orquestra com a capacidade de ecoar fora do seu próprio território. Uma orquestra que surpreende a cada concerto e mantém tradição da música erudita a que Piracicaba sempre fez jus.

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