Dando Nota

Rodrigo Alves

O estado da arte

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 1º de julho de 2016
Caderno Cultura – Página 2

No domingo, 26, representantes de segmentos artísticos apresentaram seus posicionamentos sobre O estado da arte, tema proposto por estudantes do curso de pós-graduação Literatura e Outras Linguagens Artísticas da Unimep. Como me ausentei antes do término das discussões, aproveito para tecer mais comentários, na crença de que possa interessar também aos leitores desta coluna e ciente de que o assunto não se esgota neste texto.

Apenas para contextualizar aos que desconhecem o teor do evento: o objetivo foi ouvir os protagonistas das artes e extrair propostas de ações para o enfrentamento dos tempos nebulosos em termos filosóficos, sociais e políticos, conforme descrição de Ninfa Zamprogna Barreiros, aluna do curso de pós-graduação e organizadora do debate ao lado dos docentes Alexandre Bragion e Josiane Maria de Souza.

A temática atraiu cabeças pensantes que há anos atuam na cidade. Muitos versaram basicamente sobre a descrição dos feitos artísticos, a lista infindável dos “nãos” (a famosa porta na cara) e as dificuldades em angariar recursos, governamentais ou privados.

Muito do que penso acabou não sendo dito, mas lembrei que a cultura é um caminho sem volta, ainda que seja clichê. Tive a grata felicidade de atuar na cobertura de cultura desde o início da faculdade de jornalismo. O caminho me conduziu por outras editorias, mas ainda persisto, na crença de que este é o meu lugar, transitando hoje entre os artigos de opinião e a assessoria de comunicação de teatro, dança, humor gráfico e, mais recentemente, a música erudita.

Sem esse blá-blá-blá de que um país sem educação é um país sem cultura, ou de que somos uma nação culturalmente fraca, “o estado da arte” sempre será o da militância e do convencimento. Que fique bem claro que afasto, neste momento, a partidarização política do assunto, e a ideia equivocada e paternalista de que o Estado deve a tudo prover.

Há artistas que continuam culpando aos outros pelas próprias derrotas. Sim, são incontáveis e árduas as dificuldades, mas será que não faltam o amadurecimento do discurso, o avanço nas discussões e o olhar para a própria produção na busca do aprimoramento e da reinvenção?

É triste notar a visão pessimista e viciada dos que parecem encarar a arte como um fardo. A minha crença, ainda, é de que militância e convencimento são intrínsecos ao artista. Persistir, povoar mentes, cativar e inquietar são expressões de ordem, assim como aliar a cultura ao processo educativo para o despertar das consciências. Artista que é artista permanece em constante inquietude e militância, sem precisar recorrer ao discurso da falta de espaço e da incompreensão.

Durante o encontro, faltou a discussão sobre a problemática nacional. Recentemente a classe artística quase perdeu o Ministério da Cultura. A militância fez a decisão da maioria imperar. A Lei Rouanet tem servido de alimento farto às más-línguas, até de deputados e senadores, taxando o artista como vagabundo. Até nisso o artista precisa, de novo, demonstrar por A mais B que a arte, além de formar, emprega e gera renda, e também sofre com oportunistas e paraquedistas, como as outras áreas.

Não tenho a menor dúvida que muitas áreas da cultura são negligenciadas. O problema é que sobram lamentações sobre a desunião da própria classe e da frequente formação de guetos. Sempre haverá o que prefere o rock ao clássico, a história em quadrinhos ao cartum, e o e-reader em vez do livro em papel. Já decretaram o fim dos vinis, mas aí estão eles no mercado resistindo, persistindo e coexistindo.

Não é hora de lamento, mas de construir, de refletir. As dificuldades sempre existirão. A arte, como estado, deve nos ajudar a compreender a sociedade e o comportamento humano de forma individual. E, para a retomada das conquistas sociais, precisa assumir o seu papel de relevância, num momento que realmente é obscuro. A arte, que vai além dos partidos e além de governos, é uma condição fundamental da existência humana e, em seu estado maior, sempre persistirá.

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Publicado às 1 de julho de 2016 por em cultura, Opinião, Piracicaba e marcado , , .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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