Dando Nota

Rodrigo Alves

Despercebidos

São Paulo - Pessoas em situação de rua na Praça da Sé, região central.(Rovena Rosa/Agência Brasil)

São Paulo – Pessoas em situação de rua na Praça da Sé, região central. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Publicado no Jornal de Piracicaba em 17 de junho de 2016
Caderno Cultura – Página 2

A primeira recordação que tenho de São Paulo vai e volta na minha memória. Tinha seis ou sete anos, não sei precisar a idade, e me assustei com a velocidade do trânsito, com o corre-corre alucinado das pessoas e com os arranha-céus. Para um menino de uma cidade de seis mil habitantes, acompanhar o pai na região da Ceagesp foi o momento de deparar-me com os moradores em situação de rua, realidade nunca presenciada no interior de Minas Gerais.

Na adolescência e morando no interior paulista, essas pessoas ficaram mais próximas da minha rotina, assim como as crianças vendendo rosas na Rua do Porto, os flanelinhas, os malabaristas dos semáforos e as idosas clamando por centavos de real na rua Governador. Mesmo vivendo há mais de 15 anos na área central, essa paisagem urbana continua me entristecendo e só aumenta.

Como repórter, conheci ações voluntárias para aliviar o fardo de quem vive na rua, como é o caso do movimento Obra de Maria com a distribuição de marmitas e sopas, do Restaurante Fome 1 no fornecimento de almoço a R$ 1, e das campanhas para arrecadação de agasalhados feitas por este órgão de imprensa e de outros da cidade, além de iniciativas de pequenos grupos nem sempre estampadas nos jornais.

Se há os que, movidos pela empatia ao próximo, se mobilizam de diferentes maneiras, ainda existem os atrozes. De longa data os Titãs indagaram: “Polícia, para que precisa?”.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, agentes da Guarda Civil Metropolitana estariam retirando colchões e papelões dos moradores de rua, num período em que a capital registrou a temperatura mais baixa em 22 anos. Em resposta, o órgão disse que desenvolve ações para “evitar que a população de rua privatize espaços públicos, como calçadas”. Na mesma esteira, o Diário de S. Paulo publicou que a capital teve cinco mortes suspeitas, nas ruas, em virtude do frio.

Recordo de um post de uma amiga, que tentou conscientizar seus contatos nas redes sociais sobre o sofrimento dos moradores de rua neste período do ano. Ela recomendou que cada um levasse na bolsa um casaco extra ou um cobertor a mais no carro, para possível doação. É obvio que a postagem ganhou parcos likes, enquanto a notícia da ação da Guarda Metropolitana caiu em polvorosa, com muitas acusação aos agentes, se esquecendo de que eles não agem isoladamente, cumprem apenas ordens.

Sobre tais episódios, é triste notar que trata-se de “notícia da estação”, isca aos ativistas de sofá. Gente que coloca, no dia a dia, uma espécie de capa da invisibilidade para os problemas sociais. Gente com postura homofóbica e agora super indignada com a morte na boate em Orlando, incapaz de incluir a palavra gay em seu vocabulário. Gente que sonega imposto. Gente que extorque. Gente que não enxerga o outro como pessoa. Gente desumana.

Dias antes da onda de frio teve uma temporada de chuvas e ninguém se perguntou aonde estas pessoas estavam! E para o surto do Zika e do Chikungunya? Alguém sabe se tomaram a vacina contra a H1N1? Se possuem certidão de nascimento, carteira de trabalho, CPF? Onde estão suas famílias, se os filhos choram suas ausências, se consomem crack, se vendem o corpo para sobreviver? Se uma moradia e um emprego seriam suficientes para lhes trazer de volta ao seio da sociedade?

A minha tentativa é olhar para a situação de uma forma mais humanizada, algo cada vez mais raro no jornalismo, tomado pelo denuncismo barato e por números e tabelas frias. O “populismo midiático” induz a um falso engajamento e a uma mobilização zero em outras épocas do ano. Há muito discurso e pouca prática (e aqui refiro-me à sociedade como um todo, sem apontar o mérito ou a ausência de governos, que têm cometido sérios pecados).

Quebrar a capa da invisibilidade e tornar essa população “percebida” é desafiante, em pequenos, médios e grandes centros, numa sociedade protegida por seus cobertores e aquecedores, coberta por uma casta politicamente correta, centrada no próprio umbigo e curvada nas poderosas telas de 5 polegadas dos smartphones.

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Publicado em 17 de junho de 2016 por em Opinião.

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