Dando Nota

Rodrigo Alves

A Contadora de Histórias

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 de junho de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Quando eu era criança, o domingo sempre foi reservado aos encontros familiares. Seguíamos para a zona rural, na casa da minha avó materna, onde almoçávamos. Antes de encerrar a noite, lá pelas 18h, passávamos na casa da outra avó, Divina, mãe do meu pai, que anos depois apelidei de “A Contadora de Histórias”, em alusão ao livro e ao filme Forrest Gump.

Sem ter estudado, minha avó passou a infância na lavoura, ajudando os pais. Casou-se ainda adolescente com um filho de italianos de gênio forte. O destino lhe reservou nove filhos, mais de 30 netos, bisnetos e tataranetos.

Passou a maior parte de sua vida numa casa simples, de cinco cômodos de cores diferentes, pintados com uma tinha misturada ao cal, e um amplo terreiro para a secagem de grãos de café. Criava no quintal dos fundos porcos e galinhas. E decorou a sala com um quadro de seu casamento, produzido na técnica de fotopintura em pastel seco, além de um relógio e um rádio, ambos de madeira.

A pequena varanda era onde minha avó permanecia a tarde toda, sentada num banco de madeira azul fazendo tapetes de barbante, de dois a cinco metros. Era onde também reclamava das dores nas pernas, provocadas pela trombose, e recebia os vizinhos, filhos e netos para contar suas histórias.

Passei a visitá-la uma vez por mês, após a minha mudança para Piracicaba, pois sempre gostei de ouvir sua voz baixa e com pouca entonação nas frases. Ela memorizava o exato ponto da minha última visita e retornava as novidades a partir dali. Falava dos nascimentos, das mortes e das doenças. Eu não lembrava quem eram os personagens mencionados, todos do seu bairro, mas prestava atenção no preciosismo da narrativa, carregada em detalhes simples do cotidiano.

A vó Divina era chegada numa cachaça, o que sempre achei o máximo. Tomava a primeira dose para abrir o apetite antes do almoço e, a segunda, no jantar. O litro ficava na cozinha, para quem quisesse degustar.

Num tom de quem cobra por um presente, um dia ela me disse que Piracicaba sempre foi conhecida pelas pingas. Levei um litro, disse que era produção artesanal, da Esalq, ao que ela respondeu, entre risos: “— Só? Não dá para semana!”. Ao retornar, no mês seguinte, perguntei da qualidade da bebida. Novamente bem-humorada, disse que a cachaça mineira continuava imbatível.

Na comemoração da virada do ano, dançávamos música raiz, uma de suas paixões. Foi no mesmo ano em que meu avô morreu e ela reformou a casa. Filhos, netos e bisnetos foram chamados para a festa. Notei que a cerveja estava acabando e comentei. Ela, então, retirou do sutiã um copinho, foi até um canto e encheu de pinga: “— Essa é muito melhor!”. Virei de uma só vez.

Os meus familiares, nem mesmo os meus pais, nunca souberam da forma como apelidei minha avó. A avó Forrest Gump. A avó contadora de histórias. E eu deixo registrado, aqui, a origem desta forma carinhosa de tratamento, após a sua morte, aos 86 anos, na última terça-feira, 7.

Uma amiga de faculdade, Rachel Salvego, quis conhecer a minha cidade. Numa rápida conversa com a minha avó, Rachel identificou o meu lado jornalístico, uma “herança” familiar. Eu precisei de uma observação de fora para entender algo que fazia todo o sentido. Afinal, o que é o meu ofício, senão a arte de contar histórias?

Da última vez que visitei minha avó, no Dia das Mães, pressenti que talvez fosse nosso último encontro. Ela estava na cama, doente, com dores e sem poder conversar. Esta semana, em seu velório, olhei para o céu, sentado no mesmo banquinho azul. As nuvens, dispersas em pequenos blocos, me fizeram lembrar do seus tapetes de barbante e do privilégio de ter ouvido suas prosas.

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Publicado em 10 de junho de 2016 por em Opinião.

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