Dando Nota

Rodrigo Alves

Preconceito não é opinião

Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 de maio de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Redes sociais e polêmicas são irmãs gêmeas, separadas no nascimento. Nem precisa de exame de DNA no Programa do Ratinho para constatar. A mais recente delas — que não é sobre a situação política nacional — envolve duas belas moças, não necessariamente recatadas e do lar: Patrícia Abravanel e Luana Piovani.

Sintetizando a história: a filha de Silvio Santos fez declarações homofóbicas em rede nacional de televisão, ao responder questionamentos do próprio pai. “Não é uma coisa normal”, declarou, dizendo ser contra o homossexualidade. Reação óbvia, tuítes e posts rechaçaram a herdeira do SBT, que depois pediu desculpas via Instagram e alegou ter sido “mal interpretada”.

Ai entrou no circuito a atriz Luana Piovani, num vídeo de oito minutos, intitulado “Desenhando”, em que apresenta ponto de vista contrário ao de Patrícia Abravanel. Antes, ela usou a hashtag “Preconceito não é opinião”. A atriz considera que uma comunicadora — como é o caso da filha de Silvio Santos — tem a responsabilidade social de medir as palavras em público.

Luana também afirmou que Patrícia não está numa mesa de bar ou em sua casa para emitir uma opinião retrógrada e tão forte em rede nacional, em especial no Brasil, um país que precisa avançar na educação e que tem a TV como educadora. Uma feliz citação, que cabe em defesa de qualquer causa, e não somente para discutir se o que é feito entre quatro paredes é certo ou incomum.

Apesar das reações indignadas, Patrícia Abravanel não está sozinha em seu show de equívocos. Recentemente, durante a festa de lançamento da novela Velho Chico, Benedito Ruy Barbosa disse não ser preconceituoso, mas afirmou que odeia “história de bicha” e que não transformaria isso em aula para as crianças em seus folhetins.

Na mesma esteira já se envolveram em declarações semelhantes as celebridades Claudia Leitte, Caio Castro, Myrian Rios e o próprio Silvio Santos. Daria para colocar aqui uma porção considerável da Bancada BBB no Congresso (os ruralistas, militares e fundamentalistas religiosos), mas prefiro poupar o leitor desse desgosto, lembrando que muitos dos parlamentares têm a mídia nas mãos.

Diante de tal cenário, que se vê é a transformação das plataformas de comunicação em botequins de posicionamentos preconceituosos, ideologias separatistas e do discurso “politicamente correto”. Enquanto os detentores da mídia apropriam-se dos espaços a eles concedidos (leia-se concessões públicas) para manipular a massa e proliferar seus valores, parte da população utiliza teclados e telas touchscreen para disseminar as mesmas ideologias.

Para além da questão Patrícia versus Luana, é necessário ficar atento a crimes racistas, machistas e sexistas praticados diariamente e que ainda habitam a sociedade, sejam eles cometidos nas redes sociais, pelos cidadãos comuns, pelos governantes democraticamente eleitos ou por comunicadores e órgãos de imprensa. É indispensável mapear, vigiar, combater e denunciar os que tratam a vida humana como se estivessem numa mesa de bar regada a altas doses etílicas, copos transbordando e opiniões acaloradas.

Luana tem razão: preconceito não é opinião. Disseminar valores preconceituosos em público — especialmente num meio de comunicação — é golpe, é o avesso da democracia, é conservadorismo, é imbecilidade, é falta de amor ao próximo, mas é também crime contra a humanidade, é jogar pelo ralo o trabalho de muitas entidades em prol dos direitos e, pior, colaborar para uma onda de violência maléfica e desmedida na sociedade, seja ela física, moral, psicológica ou virtual.

Um comentário em “Preconceito não é opinião

  1. Luiz Bento Pereira
    7 de outubro de 2016

    Uai, “desgosto” como assim? Vai dizer agora que eu tenho que obrigatoriamente discordar de Patricia Abravanel? É pór ser politicamente correto, ou por ter que ter a mesma opinião sua? Da mesma forma que foi dito que preconceito não é opinião eu posso dizer que opinião nem sempre é um preconceito, depende das conveniências, depende do ambiente que se vive, depende do lado que se está, ou pior, as vezes os mais enfurecidos, não estão de lado algum e querem mesmo é ver o circo pegar fogo pra vender jornais, ou pra ter seus minutos de fama em favor de minorias ruidosas que sempre estão ai reclamando, reclamando e reclamando. Eu sou ateu e nem vou dizer aqui ou diria que deus fez diferenças e cometeu equívocos em sua fabricação em série (ponto de vista meu) e assim, como não creio nele, posso crer nessa sequencia desordenada de acidentes de percurso, pela rapidez com que se movimentam esses tais átomos ou bactérias. O padrão existe, é inegável, e surge então um enrugamento na testa e quem vai me punir por isso? Você com seu absolutismo? De onde você tirou tantas certezas dando uma aqui de rei de Espanha.

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Publicado às 13 de maio de 2016 por em Opinião e marcado , , .

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