Dando Nota

Rodrigo Alves

Uma leitura sobre o bloqueio ao WhatsApp

zuckerberg

Publicado no Jornal de Piracicaba em 6 de maio de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Depois que inventaram o WhatsApp, a minha família nunca mais foi a mesma. Criamos um grupo para nos comunicar e, de forma incansável, estamos lá todos os dias, emitindo boletins das nossas rotinas. O aplicativo nos uniu muito mais que a macarronada da minha avó aos domingos. Esse laço se rompeu abruptamente esta semana, após a decisão judicial que suspendeu o mensageiro instantâneo no território nacional.

Nas míseras 24 horas sem o WhatsApp eu fiquei sem receber o bom dia da minha tia, a minha mãe deixou de assistir ao vídeo cômico encaminhado sempre às 10h pelo meu tio e, para saber as novidades de Minas Gerais, apelei para a chamada telefônica. Também perdemos episódios fofinhos que geralmente frequentam o grupo, como as peraltices do meu afilhado de cinco meses.

Enquanto alguns migraram para outros aplicativos, utilizei plataformas já disponíveis para me comunicar (como o velho e-mail e o bom Messenger), sem achar que a decisão do juiz Marcel Montalvão, do Sergipe, lesou a minha rotina de forma drástica.

Um tanto instigado sobre esse episódio, busquei uma leitura forçada nas entrelinhas nos blogs especializados em tecnologia. Encontrei alguns aspectos estranhos, após recordar que esta é a segunda vez que a medida é aplicada no Brasil (a primeira ocorreu em dezembro de 2015) e que o vice-presidente do Facebook para a América Latina chegou a ser preso em março deste ano.

Ainda por aqui, a Justiça acionou em diferentes momentos serviços como Facebook, YouTube e Google por dificultar suas investigações ou descumprir ordens. A discussão também avança no campo internacional: o FBI travou uma briga com a Apple ao tentar quebrar a criptografia do iPhone. O governo do Reino Unido critica a falta de colaboração do WhatsApp, iMessage e Facetime nas investigações contra o terrorismo.

Além desses episódios, o que descortinou de forma mais clara no Brasil — desta vez — é que o juiz Montalvão tem uma guerra declarada contra o tráfico de drogas em seu Estado, algo legítimo para o cargo que ocupa. Mas ainda paira uma cortina de fumaça sobre a postura da empresa que detém o WhatsApp (leia-se Facebook, de Mark Zuckerberg).

A alegação de Zuckerberg e sua turma é que existem regras internacionais a serem seguidas e que nada pode ser feito pela empresa, já que ela não possui escritório e funcionários no Brasil. Ora, pois: cada nação possui suas próprias regras (ou leis) e é obrigação que as pessoas físicas e jurídicas as sigam. Em qual momento isso não se aplicaria ao WhatsApp no Brasil?

Fato conhecido por poucos é que, após o último bloqueio do WhatsApp, o Ministério Público Federal anunciou a abertura de uma investigação sobre a criptografia nas mensagens do aplicativo, em vigor desde abril desde ano. O sistema “ponta a ponta”, em tese concebido para trazer mais segurança aos usuários, iria contra as leis brasileiras. Mas aí nasce outro problema, pois juristas, Anatel e especialistas em tecnologia divergem sobre o que pode ou não no Marco Civil da Internet (aprovado em 2014).

Antes de sair apedrejando o juiz brasileiro, ainda fico com a pulga atrás da orelha com uma empresa internacional que parece apenas vender sonhos a um país conhecido como a “capital universal das mídias sociais”. Não dá para responsabilizar apenas um dos lados vendo que os lesados são os usuários do aplicativo, num momento que é imprescindível discutir também a liberdade de internet, o direito à privacidade e o papel da Justiça nas novas tecnologias.

Longe desse embate ter fim, os brasileiros aguardam novas medidas do WhatsApp, como uma política mais aberta de comunicação com as autoridades brasileiras, da CPI dos Crimes Cibernéticos, ainda ineficiente na deliberação de legislações, e da própria polícia, ainda “desemparelhada” com a nova realidade virtual, os cibercrimes e a punição aos que se apropriam da rede para cometer transgressões.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 6 de maio de 2016 por em Opinião e marcado , , , , , , .

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
%d blogueiros gostam disto: