Dando Nota

Rodrigo Alves

Legião, 30

legiao-urbana-30-anos

Publicado no Jornal de Piracicaba em 15 de abril de 2016
Caderno Cultura – Página C2

A geração Coca-Cola deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar. Burguesa sem religião, filha da revolução, derrubou leis. Mesmo não sendo tão jovem e comendo lixo desde pequena, ainda vê todos os dias, quando acorda, sujeira pra todo lado, nas favelas ou no Senado. Distante de tudo, não tem mais o tempo que passou. Resta-lhe gritar que país é esse!

Quase sem querer, esta mesma geração tem a chance de encontrar seus ídolos frente a frente para um acerto de contas, 30 anos depois. É a Legião Urbana, que sem Renato Russo e Renato Rocha, ressurge das cinzas e percorre várias cidades brasileiras com a turnê Legião Urbana XXX Anos, estreada em outubro do ano passado.

Tive a chance de presenciar, na semana passada, a uma destas apresentações. As espinhas na cara já foram embora, a fase do vestibular já não existe e as incertezas sobre a profissão também, mas os versos entoados pela Legião ainda se comparam às manhas de um jogo sujo. Afinal, somos ou não o futuro da nação, quando querem transformar estupidez em recompensa, esperança em maldição?

Nas duas horas de apresentação, a química da plateia fica evidente com as letras cantadas em coro, de cor e salteado, com muitos dos fãs trajando as velhas camisetas da Legião, entusiasmados com o desempenho de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, guitarrista e baterista que fazem o dever de casa e se apresentam com a mesma energia de moleques de 18 anos.

Um dos grandes méritos do projeto é o de não seguir um teorema ou apelar para a idolatria ao letrista-mor da Legião, morto há 19 anos. Nesse quesito, o peso recai sobre a figura que lidera os vocais, o ator e músico André Frateschi, também vocalista da Heroes, banda tributo a David Bowie, e ator em séries como Sessão de Terapia e Os Homens São de Marte. O excelente desempenho cênico-musical de Frateschi afasta qualquer comparação a Renato Russo, seja no quesito vocal ou nos trejeitos.

Os músicos escalados para a nova turnê (o guitarrista Lucas Vasconcellos, o baixista Mauro Berman e o tecladista Roberto Pollo) também evitam a imitação nos arranjos, assim como os vocalistas Marina Franco, Miranda Kassin e Jonathan Doll, com intepretações carregadas de personalidade, embora não comparadas à qualidade de Frateschi.

É claro que as lembranças do passado são inevitáveis num show deste porte. É quando, diante de um blackout no palco, a banda permanece em silêncio e surge a voz de Renato Russo, nos lembrando que, em 1983, a juventude morria de medo dos PMs, levava porradas e não podia fazer quase nada. “Será que alguma coisa mudou?”, pergunta o profético vocalista.

Passados 30 anos do primeiro álbum, a Legião Urbana ainda atrai velhos e novos legionários. Pessoas como eu, que mantém nas estantes todos os álbuns do grupo e as letras na memória. Criada para comemorar uma fase, a turnê é mais que isso: é um ato político, de contestação e anárquico. Mudaram as estações, nada mudou. Muitos ainda comemoram como idiotas e festejam a inveja. A lágrima é verdadeira e, graças a Deus, existe sempre a música.

Ao final, fica a esperança de que alguma coisa aconteceu, o sol vai voltar amanhã e de que ainda estamos num país com uma corja de assassinos. Somos soldados pedindo esmola, é preciso ver a leveza das coisas com humor e queremos um trabalho honesto em vez de escravidão. Sábado, 9 de abril de 2016, a data em que eu conheci a Legião Urbana sem Renato Russo. Eu só queria estar ali! Amanhã é outro dia.

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Publicado às 15 de abril de 2016 por em música, Opinião e marcado , , , .

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