Dando Nota

Rodrigo Alves

Política com P grande

IMG_4918Publicado no Jornal de Piracicaba em 25 de março de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Na semana passada os estudantes de uma faculdade da região receberam um e-mail um tanto polêmico, a começar pelo título: “Aviso – discussões político-partidárias”. O espanto foi ainda maior com a breve mensagem da direção da instituição: “Prezado aluno, devo nesta hora lembrar que a universidade não é lugar adequado para discussões político-partidárias. A transgressão dessa norma civilizada de convivência acadêmica não será tolerada pela direção da Facamp”.

A mensagem tinha a assinatura de João Manuel Cardoso de Mello, diretor da Facamp e um dos maiores intelectuais brasileiros, com formação em direito e ciências sociais na USP. Mello é uma das figuras mais admiradas no meio acadêmico. Lecionou na Unicamp e teve, entre seus alunos, a presidente Dilma Rousseff. Foi ainda um dos idealizadores do Plano Cruzado no governo Sarney.

Nos corredores da faculdade e nas redes sociais da Facamp, o clima foi de crítica à direção, com menções de que a postura — agressiva e autoritária — fere a “livre manifestação do pensamento” assegurada no artigo 5º da Constituição.

O DCE da Facamp contextualizou a problemática, em nota: uma garota teria sido hostilizada por colegas ao utilizar um vestido vermelho e recebeu ordens para trocar de roupa. O diretório propôs formalmente à faculdade uma rodada de discussões sobre a crise política institucional, econômica e social no país.

Em entrevista ao Correio Popular, Mello confirmou a agressão e deu a sua versão: “não posso deixar a universidade entrar nessa histeria em que está o país. O debate da crise pode ser feito aqui, mas em termos acadêmicos”. Segundo ele, a instituição “não é lugar de política partidária”, mas “de política com P grande”.

Uma semana depois da agressão à aluna de vermelho não há um posicionamento oficial da Facamp. Até o fechamento deste texto, o DCE também não trouxe nova posição sobre o assunto. Em tempos de acirramento dos ânimos, a instituição de ensino deve explicações adequadas aos seus alunos e familiares.

Reconheço que os ânimos estão exacerbados neste momento, como também reconheço a preocupação com a garota de vermelho. Mas, como faculdade, a Facamp tem condições de chegar aos culpados e aplicar medidas administrativas. Furtar-se do debate não é o melhor caminho. É preciso mais, muito mais.

A minha preocupação sobre a falta de posicionamento recai sobre o fato de que, historicamente, é da militância estudantil que surgem novos atores políticos. Parte da minha convicção política vem dos tempos de faculdade, das aulas de sociologia, antropologia e filosofia, das conversas carregadas de utopia após as aulas, nos barzinhos da esquina. Muitos de meus colegas militam na política por terem se engajado em seminários extracurriculares e se envolvido em discussões acaloradas nos centros acadêmicos.

Arrisco dizer que um posicionamento deve surgir nos próximos dias, ainda que tardiamente. Tenho fé que a direção da Facamp olhará para os recentes movimentos, brotados especialmente esta semana, e perceberá a mobilização acadêmica em vários estados.

A Unicamp, bem ao lado da Facamp, mobilizou estudantes e professores num debate sobre a conjuntura política do país. A Unimep, instituição que me abrigou como universitário, se articulou por meio do coletivo de professores e promoveu o Ato em Defesa da Democracia.

A Facamp adota o slogan “formando profissionais de elite”, é conhecida pelos cursos em tempo integral e também pela alta empregabilidade. Como centro de formação de novos seres pensantes, esta na hora de envolver alunos e professores em discussões, sem ser doutrinadora, e colocar, no centro do debate, a cobertura midiática, o combate à corrupção, o papel dos poderes legalmente constituídos e a crise institucional e política. É uma ótima oportunidade de mostrar “a política com P grande”.

Em tempo: após a publicação deste texto, recebi a nota abaixo do DCE da Facamp.

A Direção da FACAMP aceitou a nossa proposta e organizou, em conjunto com o DCE, dois dias de debates abertos sobre a crise brasileira.

O evento “Debate Brasil: Política, Economia e Sociedade” ocorrerá em duas etapas:

– Dia 30/03: Crise Econômica e Social
Prof. Dr. Rodrigo Sabbatini

– Dia 05/04: Crise Político-Institucional
Prof. Dr. João Manuel Cardoso de Mello

Horário: 17h30
Local: Auditório FACAMP
Inscrições com o DCE

Participe e exerça sua cidadania!!!
Um abraço a todos!

DCE Celso Furtado

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Publicado às 25 de março de 2016 por em Opinião e marcado , , .

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