Dando Nota

Rodrigo Alves

Esse Tal de Roque Enrow

rita_lee_mel-lisboa

Publicado no Jornal de Piracicaba em 4 de março de 2016
Caderno Cultura – Página 2

A abertura de uma casa de espetáculos sempre suscita expectativas. Escolher uma montagem para a estreia da temporada é responsabilidade das grandes: deve agradar a uma plateia eclética, ter o potencial para lotar as poltronas e ainda dispor de qualidades técnica e artística. Assim, o público volta para a casa feliz, com a deliciosa sensação de ter aproveitado ao máximo o investimento. Foi o que presenciou Piracicaba na última semana, quando o Teatro Municipal Erotídes de Campos recebeu duas sessões do musical Rita Lee, Mora ao Lado.

Venerada por adolescentes e tiozões na minissérie Presença de Anita, a protagonista Mel Lisboa surge de cabelos ruivos e óculos arredondados para afastar qualquer estigma com o papel que a revelou para o grande público, em 2001. Tais fatores, somados ao figurino e à maquiagem, transferem ao público, num primeiro momento, a indagação: a moça de 34 anos dará conta do recado? Afinal, Mel teve a pretensão nada modesta de narrar a história de uma venerada Ovelha Negra, um dos maiores ícones da música, deste e outros tempos.

Conforme o espetáculo se desenha aos olhos do público, nota-se rapidamente a saída dos diretores Débora Dubois e Márcio Macena: fugir da imitação. Por mais que figurinos e caracterização tentem se aproximar do visual de Rita Lee, Mel Lisboa não está ali para imitar a voz da cantora. Pode até reproduzir trejeitos e adotar a icônica franja, mas o que interessa é uma grande história. É, além de um acerto, o que diferencia o musical de outros tantos já encenados, entre eles Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, Elis Regina – A Musical e Chacrinha – O Musical.

O mérito de Rita Lee, Mora ao Lado é prestar homenagem a um ícone da música nacional ainda em vida e que, para o deleite do público, tem uma vasto repertório de sucessos. Músicas como Menino Bonito, Jardins da Babilônia, Agora Só Falta Você, Ando Meio Desligado e Saúde são muito bem entoadas pelos backing vocals que acompanham a atriz e por uma banda em total sincronia com as cenas. Também certeira é a inclusão de canções de Beatles, Jimi Hendrix e Ray Charles no repertório, proporcionando uma recorte musical das décadas passadas.

Se o musical traz pouca inovação no formato, com esquetes intercalando as músicas, o artifício que provoca a rendição do público é a caricatura nas contracenas. O ator que encarna Ronnie Von até guarda semelhança com o cantor-apresentador, mas o que marca e provoca riso é o cabelo. O mesmo vale para as atuações de Hebe Camargo, Tim Maia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Gal Costa e Elis Regina, figuras marcantes na carreira de Rita Lee e lembradas no roteiro de forma caricatural.

Mesmo no ápice do espetáculo, na interpretação da música Coisas da Vida, o espetáculo não apela para o “choro frouxo” ou cenas de arrancar os lenços dos bolsos. Mesmo quando é hora de falar de assuntos densos, como a prisão da cantora durante sua primeira gravidez, em 1976, acusada de porte de maconha, e a morte prematura da irmã mais velha, Mary Lee Jones, por problemas do coração, aos 38 anos, em 1980.

Uma temporada que nasce sobre a égide “dEsse Tal de Roque Enrow” é uma dádiva ao espectador. Neste caso, os louros vão para a secretária da Ação Cultural, Rosângela Camolese, para a diretora do Teatro do Engenho, Heloísa Guerrini, e também para os patrocinadores Raízen e Comgás. Para quem marcou bobeira, nem tudo está perdido: Rita Lee, Mora ao Lado reestreia na capital paulista a partir de 26 de março, no Teatro Vivo, no bairro Morumbi.

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Publicado às 4 de março de 2016 por em música, Opinião, Piracicaba, Teatro e marcado , , , , .

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