Dando Nota

Rodrigo Alves

12 Anos de Escravidão

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 12 de fevereiro de 2016
Caderno Cultura – Página 2

Em meados do século 19, um homem é sequestrado e vendido como escravo no sul dos Estados Unidos. Solomon Northup luta para se manter vivo e preservar sua dignidade. Trata-se de 12 Anos de Escravidão, uma odisseia emocionante e real, transformada em livro e adaptada para o cinema, vencedora de três Oscar em 2014, incluindo o de melhor filme.

A autobiografia do homem livre e acorrentado reavivou a minha memória na semana passada, quando o Facebook completou 12 anos. A mais popular e também mais acessada rede social do mundo nos transforma, a cada dia, em Solomon Northup. Para a rede de Mark Zuckerberg, basta um videozinho de um minuto e pronto? Como pode um ingrediente tão simples nos iludir com o suposto Dia do Amigo? E dá-lhe poses e selfies sorridentes.

Se no filme sofremos com as dolorosas chibatadas em Solomon, na rede social o retrato do preconceito e da crueldade humana se personifica em Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos. Dona de casa, ela foi linchada quando saia da igreja no Guarujá, teve traumatismo craniano, não resistiu aos ferimentos e morreu. Uma página do Facebook originou o boato. Fabiane seria uma sequestradora de crianças e as utilizava em rituais de magia negra.

A história de Fabiane talvez seja distante, ocorreu no longínquo ano de 2014, mas não faltam exemplos recentes. Aí está a bancaria Fabíola, filmada saindo de um motel em Betim com o melhor amigo do marido. As críticas nas redes sociais se travestiram de piadinhas machistas.

Em pleno Carnaval, um pai foi acusado de racismo, por causa de uma foto em que aparece fantasiado de Aladdin e o filho (negro e adotivo) está caracterizado do macaquinho Abu, em seu ombro, enquanto a mãe se veste de Jasmine.

Ainda sobre episódios atuais, li sobre o drama de uma mãe no Texas, que encontrou uma foto de seu filho sendo usada num meme cruel, comparado a um cachorro da raça Pug. O trabalho dessa mãe, agora, é para que as imagens indevidas sejam removidas da internet, já que seu filho possui uma doença genética rara que afeta o formato da cabeça e da face.

E o que dizer da caçada dos playboys do Leblon a Chico Buarque? Uma discussão que saiu do universo real, povoou as timelines e demonstrou a ignorância de muitos para um cantor de importância histórica para o país. Uma infeliz coincidência, no mesmo período de estreia do elogiado documentário Chico – Artista Brasileiro, em sua homenagem.

É fácil afirmar que os episódios acima atestam a ignorância da sociedade. Mas a empresa de Zuckerberg tem sido conivente e ignora discursos conservadores, ideias reacionárias e pensamentos preconceituosos que incitam o ódio, o racismo e a intolerância. Com o sentimento de protagonistas da história, de posse da chibata aplicamos o castigo que julgamos melhor. Assinamos o atestado de concordância com uma nova escravidão. O virtual extrapola todas as fronteiras e traz consequências reais.

O Facebook, quase sempre, se declara “inocente”. Quando é chamado a dar explicações, não obedece a legislação brasileira e ao Marco Civil da Internet. Mesmo com um escritório no Brasil, diz que trata-se de política internacional. Se diz santo, mesmo tendo sido listado, em julho de 2013, nas denúncias de Edward Snowden, de colaboração com os Estados Unidos no controle da internet brasileira.

Tá certo, meu povo. Preciso reconhecer: o Facebook e outras redes são um elo entre os humanos. Ele nos conecta ao mundo e aos que amamos. Mas, em algumas ocasiões, é um obstáculo real de efeitos colaterais avassaladores. A escravidão acabou oficialmente nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países, mas está todos os dias no Facebook.

Somos uma legião de imbecis, preocupados em postar, curtir, comentar e compartilhar. Somos cavalheiros letrados, temos uma vida agradável com nossas famílias e nos deixamos ser enganados por Zuckerberg, o fazendeiro virtual que constantemente nos trata como meros algoritmos.

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Publicado às 12 de fevereiro de 2016 por em Opinião e marcado , , .

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