Dando Nota

Rodrigo Alves

O milagre das salas vazias

cinema

Publicado em 5 de fevereiro de 2016 no Jornal de Piracicaba
Caderno Cultura – Página 2

Muito se discutiu, na última semana, sobre a estreia estrondosa do longa-metragem Os Dez Mandamentos, produção da Paris Filmes inspirada na novela de explosivos índices de audiência da Rede Record. Jornalões como Folha de S. Paulo e O Globo, além do portal UOL, dispararam uma sequência de matérias sobre a produção, entre as quais a de que os ingressos esgotaram, mas as salas estavam vazias.

As notícias seriam preconceituosas e mal-intencionadas, respondeu a assessoria da Universal do Reino de Deus, deixando a leve impressão de que estes órgãos são, teoricamente, declarados inimigos de Edir Macedo, pastor-mor da Igreja. A Paris Filmes veio com números arrasadores: a produção alcançou 1.092 salas de cinema no fim de semana de estreia e teve 3,2 milhões de ingressos vendidos, sendo a melhor abertura de 2016 e quarta melhor dos últimos quatro anos.

Se há como descredenciar os jornalões, não tem como negar que um fenômeno muito estranho aconteceu pelo país, incluindo as cidades do interior. O próprio Jornal de Piracicaba trouxe, em reportagem no dia 28 de janeiro, que 4 mil bilhetes foram adquiridos de uma só vez, por uma única pessoa, no Cine Shopping Piracicaba. De novo a assessoria da igreja respondeu: a aquisição em massa se justificaria pelo caráter evangelizador do longa-metragem.

Para buscar uma resposta sobre a síndrome das salas vazias é preciso tentar entender a percepção do brasileiro sobre cultura, assunto mapeado no Panorama Setorial da Cultura Brasileira, uma extensa pesquisa que lança luz sobre as motivações do consumo das artes no país. A última edição do guia, sob a responsabilidade de Gisele Jordão e Renata Allucci, foi divulgada em setembro de 2014 e está disponível na internet. Elas percorreram 74 cidades das cinco regiões do país e consultaram 1.620 pessoas de todas as classes econômicas, entre 16 e 75 anos.

Dos entrevistados, 67% informaram ter como hábito cultural frequentar algum tipo de religião. Isso mesmo: para elas, a religião supre a necessidade e o desejo de inclusão na sociedade. A cultura não é associada à informação, à diversão e ao lazer. Num diagnóstico mais amplo, a religião concorre diretamente com as práticas culturais. Ir ao culto é cultura. Assistir a um filme no cinema, não.

É melhor ficar em casa, em frente à TV, assistindo a filmes, telejornais e novelas, pois a cultura já foi preenchida com a ida semanal ao culto e com os 176 capítulos já exibidos no folhetim bíblico na Record. Uma simples propaganda de “cenas inéditas” não são suficientes para convencê-lo a sair de casa. Ter os ingressos de Os Dez Mandamentos em mãos, e de graça, não representa a ida ao cinema.

Como espectador e apreciador de obras cinematográficas, lamento que três das sete salas em Piracicaba tenham sido destinadas ao filme, caminho seguido pelas grandes redes de cinema do país. É lamentável perceber que pensaram tão somente nos seus próprios bolsos, deixando de exibir boas produções que concorrem a estatuetas no Oscar, também com potencial para engordar as bilheterias. É triste ver que muitas salas tapam os olhos para excelentes roteiros nacionais recém-estreados e deram tratamento diferenciado para o longa evangélico.

Com lucro de R$ 25 milhões já na estreia, o filme Os Dez Mandamentos pode até desbancar Star Wars – O Despertar da Força e outras grandes produções de Hollywood. Para mim, representa tão somente uma tentativa da Record em mostrar mais força que a Globo, seja no cinema ou na TV. As cenas do filme podem até serem repletas de milagres, entre eles a abertura do Mar Vermelho por Moisés, mas seus produtores certamente não contavam com o milagre das salas vazias.

2 comentários em “O milagre das salas vazias

  1. Rodrigo Alves
    5 de fevereiro de 2016

    Pois é, Fernando. Eu também já perdi as contas das reclamações sobre a qualidade do cinema em nossa cidade. Aliás, a primeira carta que escrevi ao jornal, ainda como estudante do primeiro ano de jornalismo, tratava dessa falta de respeito com os clientes. Talvez eu tenha uma visão um pouco pessimista sobre uma rede concorrente na cidade, que pode até ajudar. No fundo, no fundo, o pensamento das redes é pelos blockbusters, sempre rentáveis. Cumprir a cota nacional, então, um grande sonho. Sonhar não custa nada e, quem sabe, possamos dizer um dia que Piracicaba tem boas salas de cinema. Obrigado pelo comentário, abraços.

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  2. Antonio M.L. Toledo
    5 de fevereiro de 2016

    Caro Rodrigo, lendo seu artigo de hoje no JP, compartilho com seu lamento de três das sete salas do Cine Shopping Piracicaba terem sido destinadas ao filme Os Dez Mandamentos. Não precisava tudo isso para um filme que vai ficar marcado como o único no mundo que teve “sessões esgotadas e salas vazias”. Realmente nossos exibidores, no caso aqui o Grupo Araujo, pensam apenas no lucro e não em dar opções aos cinéfilos. Veja o exemplo deste último “Star Wars” que absurdamente foi lançado em seis (6) salas. Quando as salas aqui foram aumentadas de cinco para sete, achei que teríamos uma melhor programação. Ledo engano. Continuam como antes. Já cobrei várias vezes o Grupo Araujo para ocupar as sete salas com mais filmes, inclusive destinar uma das salas para os filmes europeus, os chamados Filmes de Arte. Essa forma de lançar um mesmo filme em várias salas obviamente não deixa espaço para muitos novos filmes que são lançados semanalmente no Brasil. chegarem aqui. Lembro que nem mesmo o vencedor do Oscar de 2014 “12 Anos de Escravidão” chegou aqui. Mais recentemente outros filmes interessantes não chegaram a ser exibidos aqui, como Chico – Artista Brasileiro, Carol, Steve Jobs, As Sufragistas, Anomalisa, Chatô – O Rei do Brasil, Spotlight – Segredos Revelados, Joy: O Nome do Sucesso, “Que Horas Ela Volta?, entre tantos outros. Se cada uma das sete salas fosse ocupada por um filme diferente, teríamos melhores opções para ir ao cinema. Os filmes existem, o que não existe são salas para eles, pelo menos em Piracicaba. Enquanto imperar o monopólio, isso vai continuar. Só vai mudar quando tivermos novas salas num novo shopping.
    Um abraço, Rodrigo.

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