Dando Nota

Rodrigo Alves

Nós somos

I Am - Você Tem o Poder de Mudar o Mundo no Vimeo 2015-12-11 10-35-59

Publicado no Jornal de Piracicaba em 4 de dezembro de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Uma amiga me telefonou estes dias para contar uma história de traição. Era sobre outra amiga, dela e minha. Ela teria levado uma rasteira profissional. Sem muito saber em qual seara habitar, pedi calma em nome das duas amizades, disse que deveria dar tempo ao tempo, e que as coisas se ajeitariam.

Em casa, depois de certa sobrecarga profissional, tento me concentrar na leitura de um livro. O cansaço e a agitação me impedem de seguir com as páginas, já pesadas nas mãos. TV a cabo, geladeira, internet. Tudo desinteressante.

Naquele entediante fim de tarde sem muitas opções, recebo a recomendação para conferir a um documentário, disponível no Vimeo. Obra do acaso, que fez bem danado e que resolvo compartilhar nestas linhas. Trata-se de I Am – Você Tem o Poder de Mudar o Mundo, um filme de 2013, dirigido por Tom Shadyac, um diretor de sucesso em Hollywood.

Conhecido pela direção de Ace Ventura, O Professor Aloprado e O Mentiroso, Shadyac sofreu um ferimento na cabeça que ameaçou sua vida. Depois do episódio, traçou uma jornada para descobrir e responder o que está errado no mundo e o que podemos fazer sobre isso. Ele procurou as respostas com escritores, poetas, professores, líderes religiosos e cientistas, que falam sobre suas próprias escolhas.

A obra questiona o pensamento de que o ser alfa domina a humanidade. Fala de uma interpretação equivocada da humanidade para os conceitos de Darwin. E que, ao contrário de competição, da lei do mais forte vencendo o mais fraco, o maior instinto do homem é a piedade. Shadyac, com suas entrevistas, nos faz um convite: ajude o próximo e sinta a alegria tomar conta de você. Pois a raiva, afinal, nos torna imbecis e instaura um clima de hostilidade.

A mensagem do filme ficou guardada na minha mente, porque ela aborda ainda o excesso e a ambição humana. Nesta quarta-feira, 2, foi inevitável não lembrar do documentário ao ver Eduardo Cunha falar sobre o processo de impeachment contra Dilma e, depois, a chefe da Nação se defendendo, destacando que nunca coagiu para satisfazer seus interesses e cumpre um mandato democraticamente conferido pelos eleitores brasileiros.

Não sou fã de autoajuda, seja nos livros ou nos filmes, mas a obra de Tom Shadyac parece ter vindo na hora certa para o atual contexto. A sensação é de uma crise de humanidade, como um todo, que afronta duas bases da natureza, a colaboração e a democracia, intrínsecos ao nosso DNA, de insetos a primatas.

O documentário também me remete a episódios recentes, como a disputa partidária nas redes sociais, a reorganização das escolas estaduais de São Paulo, o movimento de ocupação dos estudantes, os atentados em Paris (no Charlie Hebdo e no Bataclan), a lama da Samarco e a rasteira que minha amiga levou. Situações pequenas e grandes, em que o ‘ter’ suplanta o ‘ser’, em que faltam conexão e harmonia entre os seres.

Utilizando conceitos da filosofia, Shadyac — sem passar uma receita de bolo — lembra da necessidade de o homem seguir construindo pontes, lutando pelo belo, pelo bom, pelo justo, até o dia de sua partida. Um pensamento que parece utópico, mas com o potencial de tornar-se realidade a partir do coletivo. É o repensar da própria existência. Em vez do “eu sou”, trabalhar para o “nós somos”.

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Publicado em 11 de dezembro de 2015 por em Opinião.

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