Dando Nota

Rodrigo Alves

Lodo

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 de novembro de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Apresentado na segunda-feira, 9, no Armazém Eugênio Nardin do Engenho Central, o espetáculo Lodo fez um convite forçado ao público do 10º Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba): refletir sobre a condição degradante do trabalho no país, em especial na construção civil. E também nos remeteu, inevitavelmente, a um episódio atual, o rompimento das barragens da mineradora Samarco, em Bento Rodrigues, e os incalculáveis danos ambientais aos municípios de Minas Gerais e Espírito Santo.

Neguito e Zenildo. João Scarpa e Ricardo Araújo. Um usa um gorro, está com as roupas simples e sujas. O outro, mesmo de terno e gravata, não aparenta a superioridade que o traje lhe impõe. O primeiro é o novo habitante daquele poço, está em busca respostas. O segundo já estava no local, não sabe bem como, e tenta impor seus ensinamentos. Tem a bíblia em mãos. Dois homens sem lembranças, sem tempo, sem qualquer contato com a realidade. Dois escravos do sistema.

Ainda com as luzes apagadas, um som angustiante invade a sala de espetáculo. São sucessivas vozes. O som denota, num tom grave, os gritos de desespero dos milhares de trabalhadores, afugentados por um sistema que os leva ao fundo do poço. Num momento como este, como espectador, a mensagem ecoou para muito além disso. É o grito abafado pela lama. O clamor que não queremos ouvir. O desastre que a mídia silenciou. Os números maquiados. A falta de providências das autoridades constituídas.

O espetáculo continua. Estou posicionado ao centro da arena, na primeira fileira, num contato muito próximo com os dois atores. Partículas de barro caem no poço, com maior ou menor intensidade. O cheiro é forte. As personagens falam da solidão da vida, das vezes que só lhes resta escutar a própria voz, das constantes quedas em direção ao poço, dos buracos por nós cavados, das correntes amarradas nas pernas, das vezes em que aceitamos a própria escravidão.

Lodo, de João Scarpa e Ricardo Araújo, é a denúncia muito atual sobre a ganância capitalista, como bem lembrou o colega Miguel Arcanjo Prado em seu texto sobre o espetáculo. Lodo é a sede incessante por fortunas. É o que afundou a população ribeirinha de Minas Gerais, sua fauna e flora. É o tsunami brasileiro que engoliu as ruas, as cidades e os sonhos num verdadeiro mar de lamas. Lodo é o silêncio dos governantes e empresários.

Assim como em Lodo, quantas vezes somos levados ao fundo do poço? Como cidadãos, trabalhadores e pagadores de impostos, vivemos sem a perspectiva de o “sol brilhar mais uma vez”, sem acreditar que a maldade irá desaparecer, ao contrário dos versos da canção Juízo Final. Neguito quer saber como encontrar o fim do poço, a luz no fim do túnel, o buraco de passagem, o caminho para a luz. Lembro da Nação Zumbi e da música Da Lama ao Caos: “Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça… um homem roubado nunca se engana”.

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Publicado às 13 de novembro de 2015 por em Opinião, Piracicaba, Teatro e marcado , , , , .

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