Dando Nota

Rodrigo Alves

As pedaladas da imprensa

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 30 de outubro de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Os jornais estão fora do eixo. A culpa não é das máquinas impressoras rotativas. A televisão está um chuvisco só (mesmo sendo digital). O radinho, que não é de pilha, sofre de chiados. Toda exibida e moderna, a web entrou no clima. Seus layouts ficaram confusos, atordoam a visão. E os cidadãos andam meio desajustados.

É ter uma atualização na 135ª linha do processo da Lava Jato e a imprensa monta caminhões de links ao vivo no Planalto Central. É preciso transmitir ao público mais uma notícia requentada da mega investigação, o maior caso de corrupção do país já apurado. E dá-lhe Ibope para Sérgio Moro!

O momento é de queda de empregos, de alta nos preços, de contenção de gastos, de colocar o pé no acelerador, de ficar esperto com a inflação. Entra a Miriam Leitão, saltitante e de olhar didático-pedagógico. Como se o espectador tivesse quatro anos, cita os dados colhidos ‘in loco’ sobre o triste cenário. Pobre país de corruptos, completa Alexandre Garcia. É crise, crise e, de novo, a crise.

No jornal do meio-dia a manchete é sobre os casos de dengue: triplicaram em 2015. A repórter é clara: falta investimento do governo (falta de consciência do cidadão, nem pensar). Na sequência, informam do rombo de R$ 2 bilhões nos cofres federais, da situação caótica na saúde após greve dos servidores. É noticiário ou filme de terror?

O repórter, nas entrelinhas do texto, produz a informação editorializada. O âncora, após a matéria sobre o buraco nas contas públicas, é categórico com “não está fácil para ninguém!”. Um certo jornalão, em seu site oficial, desenvolve um canal especial, intitulado “Brasil em Crise”. É aquele chá de ânimo já na página inicial.

Independente do formato, é fácil notar o espírito negativista dos órgãos de imprensa, o que contribui, no dia a dia, para pautar o que o público fala e discute. É o que chamamos, no jornalismo, de agenda setting, ou o poder da mídia em influenciar opiniões. Isso acontece de uma forma muito intensa, embora existam os vacinados que filtrem o joio do trigo na avalanche de notícias.

Perceber essa força do agendamento da mídia é fácil nas ruas. No supermercado (lugar de gente feliz!) encontro uma senhora reclamando de como “o salário não rende”. Seu carrinho está repleto de itens de primeira necessidade (como o iogurte Activia, bom para regular o intestino, né?). O elevador do prédio, vejam só, está com o repertório ampliado: é Dilma, Cunha e seus comparsas. Cadê as conversas amenas? O calorão, o temporal, o ano que passou voando…

Pelo WhatsApp vem uma notícia quente, informando do confisco das contas de poupança. Algumas horas depois, outra pessoa encaminha uma foto sobre o fim do 13º salário, que teoricamente seria votado no Congresso. Na sequência surge um “aviso aos desavisados” sobre o reajuste das multas e a proibição do uso do insulfilm nos carros. É o agenda setting mentiroso pautando as redes sociais.

Voltemos à velha mídia, também profetizadora. O exemplo mais recente é o primeiro turno das eleições presidenciais na Argentina, em que o candidato governista conquistou 36,6% dos votos, contra 34,5% do opositor. Venderam como derrota da presidente Cristina Kirchner! Até onde eu saiba, resultado de segundo turno é na urna, depois de computado o último voto. É a imprensa Mãe Dinah mudando o conceito de empate técnico.

Para quem é da comunicação, o assunto agendamento é batido. Também entendo que a imprensa não deve calar-se para os assuntos do momento, por mais hediondos que sejam. Só que é assustadora a postura uniformizada em busca de vilões, como se estivéssemos num seriado norte-americano. Algo como House of Cards, American Horror Story ou Breaking Bad. Muito em breve teremos o Heisenberg como analista político!

Li, entre as matérias negativas, que a crise política atordoa os economistas. Eu, enquanto jornalista, estou atônito com os coleguinhas de profissão, habituados a dar as notícias e, de quebra, sentenciar. Está fazendo falta, “em tempos de crise”, uma imprensa propositiva. E já que o termo “pedaladas” está em alta na mídia, a minha proposta é um “Pedala Robinho” nesse tipo de jornalismo.

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Publicado às 30 de outubro de 2015 por em Opinião e marcado , , .

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