Dando Nota

Rodrigo Alves

Domingo na Paulista

avenida-paulista

Publicado no Jornal de Piracicaba em 23 de outubro de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Usufruir do espaço público, ter acesso a equipamentos e reocupar áreas são demandas reais em prol da circulação dos cidadãos. A transformação da rua, espaço conhecido tão somente para o tráfego de automóveis, é um clamor urgente dos novos tempos, de uma sociedade que busca, cada vez mais, o urbano aliado ao humano. Pois foi a primeira vez que tive esse sentimento na avenida Paulista, uma das principais artérias de São Paulo: um lugar de encontros, dos acontecimentos, das práticas sociais e de manifestações.

Subi as escadas do Metrô Consolação com a intenção de seguir para o Masp, que exibe a exposição Arte da França: De Lacroix a Cézanne. Mudei rapidamente os meus planos, acompanhado da amiga Mariana Valadares. Imediatamente fomos atraídos pelas várias performances musicais de diferentes grupos, em cada esquina da Paulista, e a Mari registrou tudo em vídeo para o seu blog, o Poucas e Boas da Mari. A Paulista estava, literalmente, fechada para carros, das 9h às 17h.

O cansaço não nos venceu. Percorremos várias quadras para saber o quão surpreendente a Paulista se mostraria. Assistimos, em frente ao Market Paulista, a descontraída banda Saco de Gatos, com letras repletas de trocadilhos, e os cantores Lucia Zorzi e Rodolfo Horoiwa, integrantes do Les Jasmin-Basilic, entoando uma versão em francês de Noite dos Mascarados, de Chico Buarque.

Também feliz foi a intervenção instrumental de baldes, saxofone e baixo do Kick Bucket, habitués de festivais de rua, e do grupo de metais Ôncalo, interpretando os divertidos versos de A-E-I-O-U, Ipsilone. Detalhe: o extenso conjunto, posicionado em frente ao edifício da Fiesp, serviu de bloqueio ao pato inflável da federação das indústrias contra os impostos.

Independente do bike ativismo (ou cicloativismo) tão recente, a minha visão é a do pedestre que pouco notou os atípicos 18 graus daquele domingo de outubro. Não fez diferença também o tempo nublado. Pelo contrário: o colorido se fez presente na alegria das pessoas, sozinhas ou com seus cachorros, tornando a cidade mais humana, compartilhada, com mais encontros, lazer e cultura.

Como turista, não consigo entender os movimentos contrários à iniciativa. Nas poucas andanças pelo exterior, presenciei espaços abertos na Times Square, coração da Big Apple, na Kensington Market, em Toronto, um verdadeiro “mercado ao ar livre”, e na Saint Catherine, a principal via comercial de Montreal, com dois quilômetros explorados por bares, vendedores e artistas. Também é assim na Colômbia, que dispõe de 120 quilômetros abertos ao público desde 1974, na capital Bogotá. Há exemplos pelo mundo a perder de vista, de cidades adeptas do “open streets”.

No primeiro domingo em que a imponente Paulista esteve aberta, foi uma experiência paradoxal o momento em que os agentes de trânsito se posicionaram na altura da Praça Osvaldo Cruz para liberar o tráfego de automóveis. Segundos depois, as pessoas caminhavam aceleradas nas calçadas, como se o trânsito trouxesse de volta o cinza de São Paulo.

Ter uma avenida como a Paulista aberta para pedestres é ganhar de presente uma oportunidade de ver — e viver — a cidade a partir de uma perspectiva nova e, essencialmente, a uma velocidade mais baixa. Olhar nos olhos de outras pessoas, passear tranquilamente de bike, skate, patins ou a pé. Explorar a arquitetura, ver gente sorridente sentada no chão. Casais se amando, abraçados e de mãos dadas. Jovens e idosos, meninos e meninas, homens e mulheres.

Avenida Paulista fechada? Ainda não entendi esse conceito que a imprensa propagou na véspera da decisão da prefeitura, marcada por certa reticência do Ministério Público contra a reapropriação do espaço público por diferentes atores sociais. Pelo que vi (e vivi), a minha concepção é ao contrário: a avenida Paulista, finalmente, está aberta. Aberta para o novo. Aberta para as artes. Aberta para os cães. Aberta para as famílias. Aberta para as pessoas. Aberta para o imaginário. Aberta para as novas possibilidades.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 23 de outubro de 2015 por em Opinião e marcado , , .

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP A Arte em Bronze, exposição que será aberta nesta sexta-feira, 7, na Pinacoteca Miguel Dutra, às 20h, reúne obras de 34 artistas do Brasil e do exterior. Visitas até 29/7, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Entrada gratuita. #Piracicaba250anos
%d blogueiros gostam disto: