Dando Nota

Rodrigo Alves

Todos querem o CoMCult

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 2 de outubro de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Há um cheiro estranho no ar e não é do restilo da cana-de-açúcar. O rio Piracicaba está caudaloso e triunfante com os temporais de setembro, deixou de causar incômodo. Só que meu olfato estranha a reação da classe artística com o CoMCult, o Conselho Municipal de Cultura. De uma hora para outra, todos parecem ter interesse a uma vaga nesse organismo, criado para tratar das políticas públicas na cidade. O que querem, afinal, estas pessoas ao pleitear cargos nas suas supostas áreas de atuação? Sem chegar a uma conclusão, pressinto que algo não cheira bem.

Resultado de discussões entre os vários segmentos, o CoMCult nasceu com status: para a sua criação, a administração pública contratou até um instituto -­ o Polis -­, que acompanhou inúmeras reuniões na sua formatação; a cerimônia inaugural foi das mais badaladas, com Gilberto Gil, ministro da Cultura na ocasião, empossando os integrantes no Engenho Central. Eu estava lá como repórter de Cultura e acompanhei todas as reuniões que culminaram na criação do ComCult.

De 2004, data de fundação, até os dias atuais, muita coisa mudou. Antes eram 64 integrantes (sendo metade suplente), hoje são 24 pessoas, entre titulares e suplentes. Como forma de garantir o equilíbrio na representatividade, a paridade é respeitada: 50% são provenientes da sociedade civil e 50% indicados pelo poder público. E é nessa primeira fatia a que me refiro, pois ela precisa de um voto para se eleger, e não de uma nomeação. Minha afirmação está amparada na eleição da última quarta-feira, 30, para os representantes da literatura, da qual tive direito ao voto.

O que eu assisti? A uma briga ferrenha pelo cargo (e não parecia coisa de gente adulta, madura, civilizada). Eu olhava para aquela eleição e não conseguia pensar diferente: ao que se submete um ser humano para exercer o poder? Talvez a expressão mais correta seja esta: o poder, a qualquer custo. Quem estava lá comprovou. Lamento não ter levado uma caixa de lenços.

O CoMCult tornou-se um colegiado aos aspirantes de cargos políticos e que se camuflam com o discurso que pretendem batalhar por uma causa coletiva ou em prol do desenvolvimento da cultura. Há gente que deseja atualizar seu currículo com uma vaga de conselheiro, gente que se candidatou apenas para fazer o time “do contra”. Ainda tem pessoas que sequer são espectadoras em shows musicais, saraus, peças de teatro e passam longe de serem “fazedores da cultura”.

Triste, se pensarmos que a função do CoMCult é a deliberar, normatizar, fiscalizar e dar opinião das atividades e dinâmicas culturais do município, propor e promover eventos, contribuir com a gestão cultural e nas outras áreas da administração municipal. Isso é o que diz a lei n.º 5.418, sancionada em 14 de maio de 2004, mas o que eu vi na eleição do ComCult foi, tão somente, uma briga de egos e, principalmente, uma disputa clara pelo exercício de um pequeno poder para delegar em causa própria.

Também percebo uma falha no regimento interno e esse aprimoramento será um dos desafios dos conselheiros eleitos. O critério para comprovação do eleitorado é falho. Teve voto que fez diferença e foi de quem tem o diploma, mas nunca esteve no segmento (ou nunca atuou). Que tal restringir a comprovação em pelo menos dois anos? Passou disso, não vota. Afinal, é justo dizer que láááá em 1979 eu conquistei um diploma X e, por isso, posso votar?

Além disso, é falha a comprovação da candidatura, com a expressão “dentre outros do gênero”. Assim é muito fácil: um sujeito que cuida da sua hortinha orgânica se diz da “cultura popular”, ocupa o púlpito, faz um discurso de apaixonado, arrasta seus eleitores e garante a vaga. Ter sido da área em algum momento não quer dizer que a pessoa é gabaritada, hoje, para representar uma categoria inteira.

O CoMCult é mais que uma obrigação da legislação. É um órgão para mapear e planejar a cultura em Piracicaba junto aos poderes legalmente constituídos. Mas o CoMCult está distante disso. Se esse desenho continuar, perde a cultura da cidade, perde o espectador e perde a classe artística, carente de pessoas que realmente batalham pelo poder transformador da cultura.

11 comentários em “Todos querem o CoMCult

  1. Rodrigo Alves
    8 de outubro de 2015

    Foi não… os candidatos não precisaram comprovar. Não lembro de dramaturgo (candidato) nenhum entregando texto lá…

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  2. Léo Silva
    8 de outubro de 2015

    Sou dramaturgo, querido jornalista. E assim como na sua profissão (depois da justa queda da obrigatoriedade de diploma universitário para se exercê-la) não são papéis quem me comprovam. O que me faz dramaturgo são minhas criações. A Arte é livre das determinações meritocráticas. Seus livros de gêneros literários não falam nada sobre isso?
    Te convido – novamente! – para assistir à duas peças que estamos rodando há quase dois anos pelo Estado de São Paulo e pela cidade cujas dramaturgias são de minha autoria. Será um prazer recebê-lo e, por quê não, ser criticado por você.
    Por fim, a comprovação de todos(as) foi feita pela mesa diretora antes da votação. Se lembra? E ainda assim questiona a presença dos(as) dramaturgos(as) na sessão?

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  3. Rodrigo Alves
    8 de outubro de 2015

    Pois é, Fábio… fiquei sabendo que teve um grupo de alunos que até levou os pais para votar…santa ingenuidade!

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  4. Rodrigo Alves
    8 de outubro de 2015

    Se você provar, Léo Silva, que existia lá um dramaturgo, eu envio um exemplar grátis para você sobre gêneros literários, assim poderia estudar mais o assunto em questão.

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  5. Fabio San Juan
    8 de outubro de 2015

    É, realmente, de se perguntar, como você fez, Rodrigo: por que de uma hora para outra pessoas que nunca apareceram no Comcult apareceram por lá? Por exemplo, na votação do representante da Música, na qual apareceram em peso quase todos os alunos de uma certa Escola os quais nem sabiam que era o candidato em quem tinham que votar, e que foram instruídos na hora? Estranho, né? Parabéns pela sua agudeza e jornalismo investigativo.

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  6. Léo Silva
    8 de outubro de 2015

    Como crítico de teatro é um ótimo jornalista, Rodrigo!
    “Coro de encenadores”, melodrama sem musica, farsa sem farsa… Mas admito que foi preciso ao citar a comédia de costumes. Afinal, a aceitação indubitável, sem a mínima tentativa de investigação de preconceito social e racial é prática costumeira e cotidiana no “lugar onde o peixe para”.
    E se me permite a indagação, quem merece mais o seu título de “realmente da literatura”: colunistas sociais ou dramaturgos?
    Obrigado pela atenção e resposta!

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  7. José Antonio
    8 de outubro de 2015

    Parabéns Rodrigo. Você conseguiu captar o sentimento da classe artística PIRACICABANA que durante mais de 10 anos manteve em funcionamento este conselho. Em alguns anos precisou implorar para que artistas dessem sua valiosa contribuição para que o mesmo não deixasse de existir. E agora, como num estalar de dedos, as salas de votação estavam cheias de eleitores/candidatos que nunca souberam ou quiseram saber da existência do Conselho de Cultura. Será que são as polpudas verbas que algumas entidades passaram a receber nesses últimos anos. Nós estaremos atentos, como sempre estivemos. Na torcida para que esse novo conselho realmente cumpra a sua função de trabalhar por políticas públicas para a cultura, que atenda a todas as áreas e linguagens. Parabéns a todos os artistas da noiva da colina.

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  8. Rodrigo Alves
    8 de outubro de 2015

    Como jornalista presente na reunião, posso atestar ao que eu assisti: A um verdadeiro teatro. Teatro de gente profissional. Triste, lamentável. Fiquei na dúvida se era melodrama, comédia de costumes ou uma farsa.
    Eu olhava para aquela cena — com direito a coro de encenadores — e não conseguia acreditar! Os atores estavam mesmo inspirados e resolveram dar de presente aos que realmente são da literatura uma grande encenação! Clap, clap! Quem estava lá viu, assistiu ao vivo, saiu sem entender. Houve teatro. E se houvesse troféu pela qualidade da encenação, certamente a pessoa levaria uma estatueta de ouro, parecida com a do Oscar.

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  9. Léo Silva
    8 de outubro de 2015

    Tanto o texto quantos os comentários são precisos: todos(as) querem o CoMCult; Práticas ditatoriais são presenciadas (como voto de cabresto, por exemplo!) e dinossauros ainda ditam as regras em nossa política cultural; e foi um choque imenso presenciar na plenária de Litearatura, entre outras cenas, uma injuria racial acobertada e negligenciada por boa parte dos(as) presentes e, o pior, por jornalistas que não demonstram (e ainda não demonstram!) interesse pela investigação do caso. Enfim, segue um texto complementar a este para ampliarmos a reflexão e discussão sobre as eleições do CoMCult. Espero que leiam!
    http://www.apite.com.br/somente-agora-todosas-querem-o-comcult/

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  10. Claudio Mahle
    8 de outubro de 2015

    Bom, o nome de ComCult já cheira mais a ex-União Soviética que ao rio Piracicaba e as práticas de votação também parecem idênticas… E agora deveriam aparecer cidadãos coerentes e fazer campanha pela “volta” do Tiranossaurus Rex como meio de transporte coletivo ecológico e pratico, o único que NUNCA teve queixas de usuários a nenhum órgão de defesa do consumidor…

    Curtido por 1 pessoa

  11. Ivana Negri
    2 de outubro de 2015

    Muito bom e esclarecedor seu texto, Rodrigo. Eu estava lá e fiquei chocada com o que presenciei! Os poucos da literatura que lá estiveram foram constrangidos a provar que atuam na área e os que são de outros segmentos, saíram ilesos. É preciso mudar as regras urgente!

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