Dando Nota

Rodrigo Alves

Trem da vida

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 4 de setembro de 2015

Caderno Cultura – Página 2
Ilustração de Erasmo Spadotto

6694 é o número que me conduz a Toronto. Embarco em Montreal às 18h40. Vou de trem. O trajeto é de três horas e meia. Ao meu lado está o Adriano, o melhor companheiro para uma viagem de férias e para a jornada de uma vida. Viajo também com uma linda paisagem. Vejo o mundo de uma janela.

É pela janela que a paisagem se modifica. O trem parece seguir devagar, com o tradicional barulho da chaminé. Lá fora vejo um lago, algumas casas de madeira com seus galpões, como em muitos filmes. Às 19h45 o sol vai embora. O céu se explode, numa infinidade de nuances entre o azul, o laranja, o amarelo e o vermelho.

Aprecio novamente a paisagem. Céu limpo, sem estrelas e nuvens. Céu sem a lua. Vem à lembrança o filme Trem da Vida, sobre um vilarejo judeu que escapou do extermínio alemão. Os moradores utilizam o trem. O bobo da aldeia é quem dá a ideia, acatada pelos sábios. Eles se disfarçam de nazistas para enganar os algozes. É uma bela obra de arte, aclamada como um dos melhores sobre o holocausto.

A história do filme, ainda que em proporções diferentes, tem certa semelhança com a minha. O trem é a minha fuga. É para fugir do terror chamado cotidiano. Uma fuga em busca de paz e de descanso. Uma fuga para reencontrar o amor. Uma fuga com espaço para festas, noites de carícias e o tempo. Tempo de sobra. Tempo sem grandes preocupações com as horas. Tempo como aliado.

Férias são fugas necessárias. Deveriam ser obrigatórias, para todos, indistintamente. Férias com direito a trem, bike, carona, avião, ônibus, caminhadas, trilhas. Férias para desligar o celular. Férias para reconectar-se e dar notícias rápidas ao mundo. Férias para acompanhar a velocidade do mundo com um novo olhar. Férias para fotografar. Férias para pegar o trem.

Sei que soa estranho escrever sobre férias enquanto muitos trabalham. A escrita é sobre o trem. E sobre a fuga. Para a fuga não tem fórmula, para as férias também. Cada um faz a sua. Não importa a forma, importa a fuga. A minha foi em agosto. Fugi com as malas nas costas. Ainda penso em fugir outras vezes. Numa cabana, num hostel, em alguergue. Hotel três ou cinco estrelas. Praia, neve, montanha. Ou asfalto. E fugir sem sinal de celular, sem despertador às oito da manhã.

Nesta fuga eu peguei dois ônibus. Depois, dois aviões. Agora estou no vagão e curto o colorido do céu. Já dormi, cochilei embebido no vinho, coloquei a leitura em dia, levantei para aliviar as dores nas costas. E fugi da vida. Fugi do mundo. Esqueci as horas. Perdi a noção dos dias da semana. Deixei de lado as notícias. Apreciei a abelha sugando o mel de uma flor. Vivi o meu amor.

Em vários momentos desta fuga tive sorte. Algumas vezes eu sentei nas janelinhas. Do ônibus, do trem e do avião. Nos assentos ao meu lado encontrei gente boa de prosa. Gente que ronca. Gente que dorme de boca aberta. Gente que baba. Gente que não sai do celular. Gente com pressa. Gente estressada. Gente feliz e solícita. Gente que viajou na janelinha, mas não conseguiu ver a paisagem se modificar. Nestas férias, ou nesta fuga, eu apenas peguei o trem da vida.

2 comentários em “Trem da vida

  1. fi80s
    30 de outubro de 2015

    S2 !!!!!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Rosa Maria de Andrade
    4 de setembro de 2015

    Bem vindo de volta !! Abraços.

    Rosa Maria de Andrade

    Date: Fri, 4 Sep 2015 12:16:38 +0000 To: rosamaria.deandrade@hotmail.com

    Curtir

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Publicado às 4 de setembro de 2015 por em Opinião e marcado , .

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