Dando Nota

Rodrigo Alves

Quanto vale o espetáculo?

chapeu-01

Publicado no Jornal de Piracicaba em 28 de agosto de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Vida de turista é difícil. Trilhas sob sol escaldante, caminhadas por lagos, parques e ruas charmosas, e fotos, muitas fotos! Foi nessa de troca de lentes, busca por enquadramento e imagens deletadas, que a minha rotina em terras canadenses, nestas férias, mudou. Foi ao som de um órgão de tubos, na Catedral de São João, o Batista, na cidade de St. John’s, em Newfoundland e Labrador.

Gesto típico de turista, a minha intenção era entrar, apreciar a arquitetura e produzir algumas fotos. Localizada no centro da cidade, a igreja imponente fica numa rua estreita, de pouco movimento. No interior do espaço, uma senhora de sorriso aberto me entrega um papel e diz: “faça suas imagens e fique para o programa musical”.

Confiro as horas. Nenhum compromisso agendado para os minutos seguintes (estou de férias, afinal!). Resolvo ficar para o que eles chamam de “lunch-time music”, com início previsto para as 13h15 e duração estimada em 45 minutos.

Leio o panfleto. A intenção da igreja é chamar a atenção para a importância do órgão de tubos. Sem recursos para o restauro e a manutenção, eles planejaram apresentações semanais, sempre com um organista voluntário, “mas a contribuição do público” é bem-vinda, como diz o informe, em letras minúsculas, ao final do papel.

O programa começa e suscita muitos sentimentos. Primeiro, a alegria de estar naquele local, ouvindo Bach. Obra do acaso. Um organista, um instrumento com seus “difusores” imponentes, compondo a arquitetura da igreja. E eu, ali, de férias, um paraquedista.

Uma única música me fez lembrar de uma prima organista e das vezes que tocava na sala de sua casa, de uma amiga de infância que nunca mais encontrei, dos meus pais distantes, do meu companheiro que dedica-se à pesquisa de doutorado naquele momento, num laboratório a alguns metros da igreja.

Encerrada a sessão, deposito minha contribuição na caixa em frente ao altar. Confesso que meio perdido com a moeda local, sem saber se o valor é adequado. Percebo que alguns (possivelmente turistas, também com suas máquinas fotográficas) ignoram a caixinha de colaborações.

Certa vez, em Buenos Aires, caminhava pelo tradicional bairro de San Telmo. Na calçada, uma senhora de idade avançada tocava instrumentos exóticos: uma cornetinha na boca, um acordeão colorido e uma pequena bateria. Ao me aproximar para fotografar, ela levantou uma plaquinha: “foto – 1 dólar”. Os turistas ao redor riram muito. Eu saquei 2 pesos argentinos e coloquei no chapéu.

A campanha para o órgão de tubos e a senhorinha argentina me fazem formular uma pergunta. Quanto vale o espetáculo?

Lembro dos artistas de rua, das estátuas vivas, dos malabares, dos equilibristas e dos músicos com seus chapéus, à espera de contribuição. Lembro do teatro de rua, cuja a tradição (do período medieval) é a de “passar o chapéu” ao final das apresentações.

Lembro dos espetáculos menosprezados, à espera de público, muitas vezes com entrada gratuita. Lembro dos stand-up e do poder em lotar teatros, em troca do riso frouxo, e dos atores globais, rostinhos bonitos e corpos sarados, de técnica duvidosa. Lembro dos musicais que excursionam pelo interior, apenas com elenco de stand-in, e dos músicos que engordam os caixas das casas noturnas, com o engana que eu gosto do “couvert artístico”.

Sem muitas respostas e com a alma de turista, continuo meu trajeto ciente que contribui, mesmo que pouco, para uma causa nobre. O órgão de tubos, de som imponente. O instrumentista, hábil em transmitir emoções. Um duo que mudou a quarta-feira ensolarada. A trilha sonora me acompanha. Caminho pelas ruas de casas coloridas e encontro outros artistas ignorados, talvez com o mesmo dom de emocionar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 29 de agosto de 2015 por em Opinião e marcado , , , , .

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
%d blogueiros gostam disto: