Dando Nota

Rodrigo Alves

A cidade que me acolhe

Piracicaba


Publicado em 7 de agosto de 2015 no Jornal de Piracicaba

Caderno Cultura – Página C2

Uma velha amiga me disse, nessas conversas de boteco: “você deixa de ser forasteiro em uma cidade ao completar dez anos nela. Se chegar aos 15, cria raízes e, dificilmente, seguirá para outro lugar.” A frase foi proferida quando tinha seis anos de residência fixa em Piracicaba e estava no primeiro emprego após a graduação. O pensamento inevitável, mentalizado e não pronunciado, veio em tom de sentença: “preciso providenciar a mudança o mais rápido possível”.

Na data em que Piracicaba faz 248 anos, aproveito a madrugada para escrever mais um artigo. Contemplo a cidade do 13º andar e a lua azul sorri para mim, encantadora. Antes de chegar ao apartamento, caminho lentamente do trabalho até a minha casa (pouco mais de dois quarteirões) e reflito sobre as razões que me prenderam. Se pensar na máxima dita pela minha amiga, afirmo, hoje, que criei raízes com a cidade. Ao analisar as circunstâncias, as oportunidades que me foram dadas, terei um posicionamento mais realista. Eu preferi ficar.

É no aniversário de 248 anos de Piracicaba que completo a minha primeira década e meia na cidade. Vim com o intuito de estudar e seguir adiante. E segui… por aqui mesmo, subvertendo a lógica de que não há acolhimento nestas terras para quem é de fora. Analisando mais à frente, na festa de 250 anos, terei o mesmo tempo de permanência que na minha terra natal. Serão 17 vividos em Minas Gerais, outros 17 em Piracicaba.

Conquistei, em 15 anos, dois estágios e três empregos em empresas ou instituições locais. Galguei trabalho também nas cidades ao redor e ficava angustiado em sair daqui cedinho e voltar somente ao anoitecer. A aflição era maior só de pensar na possibilidade de transferência de endereço, a ponto de recuar diante de uma oferta para a tão sonhada capital do Estado.

Tantos falam de Piracicaba conservadora, de Piracicaba provinciana, de Piracicaba não sei das quantas… comentam dos cidadãos nativos que perguntam o seu sobrenome, para saber se tem “procedência” familiar. E fico analisando estes argumentos. As posturas até existem, mas esta onda de pessimismo é resolvida facilmente com uma perguntinha boba: qual cidade não tem defeitos?

Não sei o que me fez escolher Piracicaba. Logo no primeiro ano de faculdade, sem conhecer ninguém, os domingos eram reservados para contemplar o rio, ver os peixes no período da piracema, sentir o cheiro dos restaurantes (não tinha grana para comer neles). Hoje acolho minha família num almoço (obrigatoriamente na rua do Porto), na tentativa de ser o melhor anfitrião e mostrar o quanto a cidade é bela.

Toda vez que volto para Minas, a pergunta que mais ouço é se ainda moro em Piracicaba. É neste instante que a metralhadora dispara a falar. E coitado de quem perguntou. Não meço adjetivos sobre a cidade que não é grande, nem pequena, não é segura, nem violenta, que impressiona o turista de um dia, quem aqui nasceu, mas, principalmente, os que adotaram Piracicaba como sua cidade.

Ao iniciar este texto, quase duas da madrugada do 1º de agosto, imaginei dizer coisas muito diferentes, descrever a cidade de 15 anos atrás e a de hoje. Fui olhando pela janela, devagar, apreciando a lua, os prédios, a minha vista para o relógio da Catedral. Veio um sentimento gostoso, de pertencimento. Acredito que seja esta a sensação que Piracicaba causa nas pessoas: elas se sentem da cidade.

Talvez seja a minha singela forma de declarar o amor por Piracicaba, pelas pessoas que aqui vivem, forasteiros ou nativos, recém-instalados ou enraizados. Podem falar o que for, mas hoje, mais do que nunca, Piracicaba é a minha cidade, que me acolheu, deu muitas oportunidades e sou muito grato por tudo.

2 comentários em “A cidade que me acolhe

  1. Rodrigo Alves
    12 de setembro de 2015

    Obrigado, Aline. Quero te seguir no Flickr. Gosto muito da fotografia. Mas o escrever, como disse Clarisse Lispector, é uma maldição que salva. É isso o que significa, para mim, a escrita. Sabe aquela coisa de fazer novos caminhos, de descobrir possibilidades, de ver as coisas por um outro ângulo. Tão difícil, né? A rotina nos sufoca. Mas, às vezes, a gente consegue. É o que tento, através da palavra

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  2. Aline Godoy
    8 de setembro de 2015

    Olá! Conheci seu blog através de seu perfil no flickr e não pude deixar de te deixar um elogio.
    Adorei o seu jeito de escrever e adorei ainda mais esse seu texto sobre Piracicaba. Acho muito interessante que as opiniões mais positivas sobre a nossa cidade são sempre mais constantes em pessoas de fora.
    Eu moro em Piracicaba desde que nasci, e confesso que nunca havia pensado nela dessa maneira. Amo minha cidade, mas olhar para ela através dos olhos de pessoas como você, que vieram de outro lugar, é sempre uma experiência muito gratificante. Me faz voltar a olhar para os mesmos lugares com uma perspectiva diferente. Com paixão. :)
    Parabéns pelo seu talento na escrita e também na fotografia! – Adorei suas fotos!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 7 de agosto de 2015 por em Opinião, Piracicaba e marcado , , , .

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#PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP A Arte em Bronze, exposição que será aberta nesta sexta-feira, 7, na Pinacoteca Miguel Dutra, às 20h, reúne obras de 34 artistas do Brasil e do exterior. Visitas até 29/7, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Entrada gratuita. #Piracicaba250anos
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