Dando Nota

Rodrigo Alves

A Barba & Eu

barbearia
Publicado no Jornal de Piracicaba em 31 de julho de 2015
Caderno Cultura – Página 2

O título desse artigo poderia ser Marley & Eu. É assim que me sinto com a barba. É como o peralta cão labrador que originou filme e livro homônimos. Dessa relação incorrigível veio uma trégua recente. Deixei os fios se alongarem no entorno do rosto.

No embalo de certa modinha, amadureci a ideia de procurar um legítimo barbeiro, recém-instalado na área central da cidade. Bisbilhoto o Facebook do recinto. As simpáticas dicas apresentadas no perfil me convencem. Espero os fios crescerem. Agendo um horário.

Antes de chegar ao local, passo para cortar o cabelo. “Hoje vou conhecer uma barbearia gourmet”, ironizo, citando as matérias jornalísticas sobre as filas nas casas paulistanas e as pautas frequentes em sites de moda. É como se estivesse indo para um parque de diversões.

O primeiro susto é com o local. O barbeiro e a cadeira. Televisão, sofá, espelhos e um mini frigobar. Sem frescura. Ingênuo fui de pensar diferente. Não estou, afinal, num centro de estética, pra passar base nas unhas, fazer depilação ou limpeza de pele.

Enquanto espero, o barbeiro logo pergunta se quero uma cerveja “por conta da casa”. Quase me empolgo. Abandono a ideia. O estômago está vazio, são 11 da matina e tenho trabalho pela frente, mesmo no sábado.

Sou convidado a ocupar a cadeira. Com o pente em mãos, o barbeiro olha para a minha cara e dispensa a interrogação. Logo exclama: “é a sua primeira vez!”. Concordo com a cabeça, sem delongas.

Surge a segunda surpresa. Uma toalha quente envolve o meu rosto. Relaxante… induz a um leve cochilo. O barbeiro a retira. Explica os vários tipos de barba. Diz que é preciso respeitar a geometria facial. Apresenta detalhes com o pente. De novo, com a cabeça, sinalizo: siga em frente!

A navalha desliza pelo meu rosto, sem dramas. A tesoura apara os excessos. Loções são aplicadas. O barbeiro pega um espelho de moldura alaranjada. Mostra as laterais do rosto. Pergunta se estou satisfeito. A minha resposta é o sorriso no rosto. Vou embora, de barba feita e pensando no retorno ao local.

No caminho para o meu compromisso, ressurge uma longa lembrança. Lembro do primeiro fio a brotar no rosto. Ainda no ensino fundamental, o tal apareceu no centro do queixo. Um tanto precoce e incômodo, motivo de algazarra para os colegas da mesma idade.

Sem qualquer instrução paternal e por não saber o que fazer com o ser estranho, agressivamente deslizo uma lâmina pelo rosto. Nasce outra relação tumultuada, desta vez com a gilete, com direito a corte e cicatriz para servir de chacota.

Lembro, ainda, de um juramento, de pé junto. Faria uma poupança e seguiria para uma clínica de estética. Uma cirurgia a laser mataria aqueles fios. Seria um prazer e tanto. Rosto lisinho, para sempre, era sonho de consumo.

Os anos passaram. A ideia foi embora. Nunca tive uma boa relação com a barba. Nunca tive disciplina para fazê-la diariamente. Sempre deixando crescer ao máximo, adiando para os fins de semana, com tufos esquecidos e papel higiênico estancando os pingos de sangue.

Eis que, agora, encontro respaldo na barba gourmetizada, na macrotendência, na onda retrô. Até elogios recebi. Os pelos expostos parecem ter agradado a alguns. Eu também gostei da brincadeira. Descobri os prazeres de ser um barbudo.

Mas preciso adiantar. Só recomendo a barba com o onipotente profissional. Não se arrisque nessa brincadeira sozinho, você pode se danar, mesmo com um mega-aparelho. E se precisa de um testemunho, me pergunte.

Depois de um leve acidente doméstico envolvendo gilete e barbeador, estou de volta com o rosto desnudo, esperando, de novo, a barba crescer.

Um salve ao velho e bom barbeiro!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 31 de julho de 2015 por em Opinião e marcado , , , .

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
%d blogueiros gostam disto: