Dando Nota

Rodrigo Alves

O Feimep e o democratizar

Publicado no Jornal de Piracicaba em 24 de julho de 2015
Caderno Cultura – Página 2

A palavra é democratizar. As pessoas usam de forma instintiva nos últimos tempos. Principalmente quando evocam a liberdade de expressão. Entra um embate nas redes sociais e lá está ela, a expressão, com maior frequência para as questões político-partidárias. Mas são poucos os que, de fato, conseguem praticar ações em prol do acessibilizar, difundir, agregar, seus simples sinônimos. Quando penso no termo, em especial nos últimos dias, lembro do Feimep, o Festival Internacional de Música Erudita que Piracicaba recebe desde o dia 19.

Desconheço o contexto que enraizou a mentalidade de que o “maledeto” erudito, no Brasil, remete ao que é de elite. Eu sei, existem contradições até entre o que se define como clássico e erudito na música. Mas tenho preguiça de entender a mesquinhez de que ir a um concerto, por exemplo, é coisa de quem tem grana para comprar o melhor casaco. Quem falou isso? Estudar violino, piano ou violoncelo, então, seria coisa pra burguês.

Descrevo três cenas presenciadas. Tenham paciência, eu chego lá, com muitos rodeios e vírgulas, no evento erudito da cidade.

No domingo passado, minutos antes do início do concerto de abertura do festival, uma senhora passa em frente ao Teatro Erotídes de Campos, no Engenho Central. Ela tinha uns 37, 35, por aí. Estava acompanhada da filhinha — de seis anos, talvez — e foi surpreendida com a pergunta: “o que tem lá? ”. A menina, na típica serelepice da idade, encontra a porta aberta e segue em sua direção. “Não pode! É música eruditaaa!”, diz a genitora, correndo, ao agarrar pelos braços a garota.

Aquele “eruditaaa” foi um tanto sonoro, raivoso, repreensor, com três “as” e exclamação. Soou desagradável aos meus ouvidos e, muito provável, para a menina. Mãe e filha seguem a rampa de saída. Sem diálogo, sem explicação, a pequena sequer teve a chance de descobrir o que era aquele som encantador. O primeiro bloqueio foi criado.

Cena dois. Acontece durante a semana. Não presenciei, mas pessoas próximas me contaram. Um “bando” de adolescentes invade a porta aberta. No interior do teatro, a Orquestra Sinfônica de Piracicaba ensaia para o quarto concerto da temporada. As meninas entram, ficam à vontade (até de mais) e fazem brincadeiras. O barulho atrapalha a concentração dos músicos. O inspetor solicita que saiam da sala.

E quando falo em serelepe, lembro de uma menina que atrapalhou meu concerto no ano passado, com seus balangandãs nos braços e correndo pra lá e pra cá, durante uma apresentação de música erudita. A cena gerou um artigo neste mesmo JotaPê, com direito a telefonema da avó da garota, mesmo sem conhecê-la. Pediu desculpas. Disse que ela era sapeca, que iria discipliná-la. Lição dada, eu com a cara vermelha de vergonha e feliz em saber que minhas descrições criaram a identificação na avó, que insistiu: “ao menos a menina tem contato com a arte desde pequena!”. Ela tem muita razão!

Mas, e aí, o Feimep, onde entra? Não apenas ele, como também a “repaginada” Sinfônica de Piracicaba, têm como mote o acesso à música erudita. E não é apenas pela gratuidade dos ingressos, como ainda as masterclasses para estudantes ouvintes e ativos, dos 14 aos 40, no caso do festival, e pelo trabalho com músicos estagiários, que integram a Sinfônica ao lado de profissionais experientes.

Feimep e Sinfônica possuem, na sua raiz, o ideal da difusão. No primeiro está o empenho do casal Micheletti (André e Mayumi) e, no segundo, do maestro Jamil Maluf. Um trio, piracicabano, que une esforços à Semac e acredita na música como formação, como educadora e intrínseca à condição humana. Basta ser despertada, aprendida, cultivada, trabalhada.

É preciso abrir os horizontes da mente para novas possibilidades. Conhecer para se encantar. Se encantar para aprender. Aprender para disseminar. Acessibilizar. Todos estes fatores representam a verdadeira intenção de democratizar.

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