Dando Nota

Rodrigo Alves

As vozes femininas de Chico Buarque

Aretha com lucinha e Tânia

Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 de julho de 2015
Caderno Cultura – Página 2

O Sesi Piracicaba apresentou na semana passada o espetáculo Palavra de Mulher, teatro musical capitaneado por Lucinha Lins, Tânia Alves e Aretha Marcos. Embora tenha assistido a performance em abril de 2014, no Teatro do Engenho, a vontade do “bis” falou mais alto e, mais uma vez, saí surpreso com a releitura das sempre atuais canções de Chico Buarque.

Conhecido como um dos melhores poetas a captar a sensibilidade feminina, Chico dispensa apresentações, tanto nas parcerias para as letras primorosas, quanto nas adaptações bem sucedidas no teatro. Não me enquadro na categoria “fã”, mas aprecio as excelentes interpretações de seus versos em outras vozes, caso de Gal Costa, Simone, Milton Nascimento, Cássia Eller, Luiza Possi e Maria Gadú.

Na versão original, Palavra de Mulher foi concebido com a participação de Virgínia Rosa, que não participa de algumas apresentações da atual temporada em função das gravações na novela Babilônia. Apesar de ser considerada a voz central do trio, a cantora que a substituiu não deixa a peteca cair em cena, incluindo no quesito sensualidade. Com seu grave arrematador, Aretha Marcos — filha dos também cantores Antônio Marcos e Vanusa — faz jus ao ditado “filho de peixe, peixinho é”.

Mais que uma homenagem aos 70 anos de Chico Buarque, comemorados em junho do ano passado, o espetáculo é uma celebração às cantigas de amor, numa alternância saudável do elenco, entre solos, duetos e trios, no melhor clima cabaré, com direito a luz vermelha, cenário intimista e interação com a plateia. É uma trama de múltiplas facetas, carregada de lirismo, trovas e erotismo em torno da construção das várias figuras femininas.

Uma das muitas canções de apelo é A História de Lily Braun, escrita por Chico em parceria com Edu Lobo. A interpretação pausada de Aretha Marcos reforça os trechos da letra, que trata da insensata busca pela felicidade nos relacionamentos. Interessante notar que a música permanece atual, mesmo tendo sido lançada há mais de 30 anos, afinal o ser humano é movido por romances, felicidades e melancolias.

Frenéticas, as cantoras exaltam as filhas das ruas, as bandidas, as mansas e as loucas. Há espaço para os belos dias e as orgias. Um enredo amoroso, contudo, ficara incompleto sem as dores de cotovelo, bem incorporadas na canção Tango de Nancy, por Lucinha Lins, com execução ao acordeom de Ogair Junior. Lucinha não deixa barato, tira da plateia um “Fernando” para dançar, e discorre sobre a ocasião em que interpretou a prostituta Nancy no espetáculo O Corsário do Rei, em 1985, sob direção de Augusto Boal.

Num apelo à memória, Lucinha também interage com a plateia ao cantar História de Uma Gata e lembra da sua personagem no filme Os Saltimbancos Trapalhões, de 1981, enquanto Tânia fala de sua boa relação com o compositor, ao ter várias das letras de Chico em seu repertório e da escalação para os musicais de sucesso Ópera do Malandro e Calabar.

O público presencia, extasiado, a interpretação — em trio — do texto Funeral de um Lavrador, composto em 1965, inspirado na obra Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. É nesta hora que o palco transforma-se em “ato político”, em que os versos sobre o amor dão lugar ao protesto, em prol dos direitos dos trabalhadores e na defesa pela distribuição das terras. É o teatro sendo explorado para as múltiplas dimensões.

Letras de música ou poemas, protesto ou festa, teatro ou musical, samba ou tango, MPB ou Bossa Nova, o trio performático composto por Lucinha, Tânia e Aretha sintetiza a pluralidade da mulher brasileira, com todas as suas delícias, dissabores e intrigas, em canções tão conhecidas e amadas, numa justa homenagem a um dos nossos maiores artistas.

Um comentário em “As vozes femininas de Chico Buarque

  1. Patrícia Simplicio da Silva da Costa.
    17 de novembro de 2015

    Elas são ótimas!. Amo Lucinha lins.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 10 de julho de 2015 por em Opinião e marcado , , , , , , .

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