Dando Nota

Rodrigo Alves

Cenas nada gourmet

lanche gourmet

Publicado no Jornal de Piracicaba em 27 de março de 2015
Página 2 do Caderno Cultura

Em tempos de gourmetização do mundo, presenciei três cenas no peculiar universo da alimentação que caminham na direção contrária. Casos corriqueiros na pizzaria, na cervejaria e no fast-food.

Essa moda que fez proliferar as casas gourmets me levou a algumas indagações. Antes da sofisticação do prato, o cliente não deveria vir em primeiro lugar? O ambiente bem decorado vale mais que o atendente treinado? Compensa pagar mais por um jantar do que pela cesta básica?

Cena 1 – O chá de cadeira

O recinto inaugurado há quase um mês promete variações artesanais do chope alemão, com notas de cravo-da-índia e banana, maturação mais estendida e malte torrado.

Dois amigos me acompanham. É sábado, 17h. Ainda não há clientes disputando as mesas. O garçom, carismático, é descontraído até demais. Apresenta o menu e faz propaganda dos produtos com propriedade.

Provamos os três chopes, trincando de gelados. O tempo passa e bate a fome. Escolhemos um mix de salsichas, picadinhas e temperadas. Uma hora e meia depois: nada da porção. Cobramos uma, duas, três vezes. O garçom evita a mesa. Nossos copos também ficam vazios.

Mesmo com o chá de cadeira, damos um crédito adicional. A casa é nova, ainda se adapta ao ritmo.

Para a sobremesa, um petit gâteau. Trinta minutos depois, chega o garçom: o item está em falta na cozinha. Pagamos a conta sem os 10% de serviço.

Na saída, aconselhamos meia-volta a amigos que esperam vagar uma mesa. Eles preferem esperar. Também se frustram.

Cena 2 – O cavernete

Perdi as contas das propagandas gratuitas aos conhecidos. Uma pizzaria nova abriu na cidade, exclusiva no sistema delivery. Encomendei em casa, pelo menos três vezes. Massa leve, ingredientes sem exageros e preço compatível.

A clientela cresce. O proprietário expande os negócios. Abre uma casa com capacidade para 30 pessoas. Vou conferir. Uma sucessão de pequenos erros.

Escolho uma mesa. Cinco minutos, nada do cardápio. Aceno com a mão. A moça vem. Sorri, com um piercing preto no meio dos dentes.

Tem vinho? Sim! Quais? Ah… um tal de “cavernete”. O pensamento vagueia: ninguém é obrigado a saber francês, mas aprender os itens do cardápio é obrigação aos que estão na área de alimentação.

Dez acenos de braço e um torcicolo são suficientes. Sou notado pela segunda vez. Ela vem na minha direção digitando no smartphone. A diversão da mocinha é o Face ou o WhatsApp? Peço um “merlote” pra beber.

A pizza chega. A qualidade é inferior das que foram entregues em casa. Quero pagar a conta. Sem a garçonete por perto, caminho até o caixa. Uma outra moça, também submersa no smartphone, me atende.

Cena 3 – Sem troco

É domingo, quase 15h. O estômago ronca. Apelo para a rede fast-food mais próxima. Vou caminhando, de bermuda e sandálias Havaianas. O local está vazio. Peço o famoso “número 1”.

A primeira cena hilária acontece ao meu lado. Ao fazer o pedido e entregar R$ 50, um rapaz é informado que a casa está sem notas miúdas. A atendente sugere cartão, o rapaz não tem. A atendente pede que ele percorra o comércio para encontrar o troco. O moço sai esbravejando. Com razão e com fome!

Continuo no local. Batata frita, refrigerante e lanche, prontos para serem devorados. Já sentado, sou surpreendido por um hit sertanejo, num volume dois tons acima do normal. Não contente com isso, uma das atendentes grita: “aumenta o som, é a música da minha vida!”. Algum deejay responde ao comando.

Induzido por certa dose de humor, vou até o caixa. Uma das garçonetes me olha. Pergunta se preciso de mais alguma coisa. Respondo: “para mim, não? Mas para sua colega falta um fone de ouvido!”. O volume volta ao normal. Aprecio meu lanche em paz.

2 comentários em “Cenas nada gourmet

  1. Rodrigo Alves
    19 de junho de 2015

    Que nada, depois que aprendemos a fórmula das “baianinhas”, temos rodado pouco… hahaha! Resumo da história: temos uma cota de “baphos” mensais. Se extrapolou, a gente não causa…tá!

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  2. fi80s
    19 de junho de 2015

    hauhauahauah tem de rir pra não chorar neh kkkkk

    imagino que nessas situações vc não estava acompanhado de determinadas pessoas impacientes… senão o barraco ia desabar!

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Publicado às 27 de março de 2015 por em Opinião e marcado .

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