Dando Nota

Rodrigo Alves

Histórias de sobrevida

Ana Souto Sem Drama
Publicado no Jornal de Piracicaba em 20 de março de 2015

Caderno Cultura – Página 2

Domingo de protestos em várias capitais e o caipira aqui, na calma de quem pica um fumo, busca alternativas para se distanciar do barulho do lugar onde o peixe não parou. Ir para o mato seria o destino mais plausível. Remei na contramão. Escolhi como refúgio São Paulo. A julgar pela experiência, constatei que existe vida além das manifestações e o país não girou ao redor delas, ao contrário do que tentou transparecer a grande mídia.

A vontade em apreciar o trabalho da atriz e dramaturga Ana Souto me fez encarar todos os temores e chegar de forma tranquila, no horário previsto, ao epicentro do movimento sísmico-político. Ana estreou, em 23 de janeiro, o espetáculo Sem Drama! (Histórias de Sobrevida). Aquele 15 de março era a última data da encenação no Teatro Ágora, na Bela Vista, distante poucas quadras da avenida Paulista, então tumultuada.

Para quem frequenta as atividades de artes cênicas na cidade, o nome de Ana Souto pode soar mais familiar. Ela esteve por aqui em 2013, como debatedora da oitava edição do Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba). Depois disso, estreitamos as relações nas redes sociais, via Facebook, e descobri seus textos, postados às sextas-feiras no blog Transversos. Seguir as reflexões externadas por ela tem sido uma das melhores experiências nesse irrestrito território de (in)utilidade virtual.

Contemplado com o Prêmio Zé Renato (de incentivo à produção teatral de São Paulo), o espetáculo dirigido por Roberto Lage explora o teatro documentário, gênero que insere a realidade no interior das cenas. Neste caso é o drama de Ana, que leva a sua vida e seus depoimentos, sem máscaras, para bem próximo do espectador. Medo, angústia e esperança são postos lado a lado na caixa negra destinada à representação.

Ana não joga perguntas aos que a assistem. Faz que o espectador as formule por conta própria. Uma notícia ruim pode nos conduzir à fatalidade? Como lidar com a insegurança do futuro? Como enxergar a si e ao outro quando a vida é incerta? Entre o nascer e o morrer, o existir é a sobrevida que nos resta? De fala rápida e agitada, ela sorri do próprio drama. Mas seria um drama? Ali, no palco, a tensão do “ser” e do “permanecer” tem o humor com ingrediente.

Os minutos finais do espetáculo se aproximam. O barulho dos protestos na avenida Paulista invade, em certo instante, o templo do espetáculo. Nem a isso Ana passa imune. Age com provocação, abrindo aspas no texto. Lembro de uma pequena citação de Luigi Pirandello: “todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é o personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência.”

Sem a intenção de cometer spoiler sobre a montagem, afirmo que o meu desejo é vê-la excursionando por festivais e cidades do interior, além de patrocinada por instituições. Pois, acima de tudo, Sem Drama! é um espetáculo que toca na raiz da saúde física e mental, seja ela pública ou privada, e expõe problemas e desafios. É humanitário, pedagógico e militante, características em falta nesses tempos insanos. É um ato sociopolítico, um safanão por mais senso de comunidade, e tão representativo quanto as verdadeiras marchas avenidas afora.

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Publicado às 19 de março de 2015 por em Opinião e marcado , , , , .

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#piracicaba250anos #piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions!
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