Dando Nota

Rodrigo Alves

Marcha da Sofrência

junho

Publicado no Jornal de Piracicaba em 13 de março de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Então domingo é dia de marcha. Sei bem. Nove horas da manhã, todo mundo na rua, acordado, disposto, com a garganta afinada, de verde e amarelo, a cara pintada e clamando por um país melhor. Tenho a leve impressão que já presenciei esse episódio nos livros de história, na televisão e, mais recentemente, nas redes sociais. Vemos um museu de grandes novidades, cantou Cazuza na década de 80.

Xápralá essa coisa de gastar o gogó, queimar sola de sapato, carregar bandeira e bater em panela. É só abrir o computador e entrar na internet. Ali estará a reprodução fiel de todos os clamores dessa terra de todo mundo e terra de ninguém. Gente com sangue no zóio, como diria meu finado avô. Ficarei em casa, com a bunda na cadeira, assistindo de camarote, da janela.

Também fiquei quietinho na marcha de 20 de junho de 2013, quando milhões aderiram ao Vem pra rua nas capitais brasileiras, embalados num jingle publicitário de uma empresa automotiva. Até tive uma baita vontade de sentir o calor da multidão, mas me segurei. Respirei fundo, só abri a janela para apreciar a paisagem. A (des)vantagem de morar no Centro é que os protestos acontecem quase dentro da sua casa.

Ouvi em algum lugar, não lembro aonde, que as redes sociais são o espelho da sociedade. Gosto desta afirmação. E acredito que o Congresso, o Senado e todos os demais cargos eletivos são nossos espelhos. Numa lógica até simplista, eu tento me esforçar, mas não vejo os reflexos do movimento do Vem pra rua. Serviu, talvez, para ilustração dos futuros livros de história. Lá está Brasília como prova: tão conservadora quanto a própria sociedade.

Não me sinto representado nesta nova marcha que desabrocha. Afirmo sem desmerecer os organizadores e financiadores ou julgar a cor de suas bandeiras, não pertenço a nenhuma delas. Os motivos são simples: marcharão pelo fim da corrupção, por não terem engolido a volta da situação ao poder e, quiçá, pela deposição da presidente. Um coro em busca da morte da bezerra. Seria tão melhor se buscassem, por exemplo, a reforma política e gastassem energia contra o financiamento das empresas nas campanhas.

Se fomos persuadidos nas urnas, se o voto foi vendido por pão com mortadela, dentadura ou algumas telhas para o término do doce lar, vamos é colocar a culpa nos dirigentes políticos? Estarei mais feliz em casa, com certeza, do que na rua. Enquanto alguns marcham, cantarei os versos de Morango do Nordeste e será mais divertido: “você só colheu o que você plantou…”. Para abafar o barulho, também pretendo convidar os amigos para a Marcha da Sofrência, puxada por Pablo do Arrocha, lembrando que homem não chora.

Assim que foi dado o start para a campanha eleitoral, desativei meu perfil no Facebook por alguns meses, cansado da briga ferrenha. Ao retornar, constatei que pouca coisa útil rondou o território virtual. O problema é que o desarranjo se arrasta e a internet virou a casa da mãe Joana. Se nas redes virtuais a coisa está uma algazarra só, o que esperar da marcha unida, na vida real? Ah… não quero gritar o santo nome da vaca em vão, não mesmo. Discurso de ódio não é liberdade de expressão!

No livro A Jangada de Pedra, José Saramago escreveu que cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem. Neste momento, os meus olhos, verdes e míopes, ainda cantam Lennon e imaginam todas as pessoas vivendo a vida em paz, respeitando os direitos individuais e coletivos. Aos que acreditam que a visão é alienada ou turva, pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único.

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Publicado às 12 de março de 2015 por em Opinião e marcado , , , , .

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