Dando Nota

Rodrigo Alves

25 doses de vodca

cheers

Publicado no Jornal de Piracicaba em 6 de março de 2015
Página 2 do Caderno Cultura

A cena se repete de Norte a Sul do país. Atire a primeira pedra quem apagou da memória o primeiro porre. O meu foi tardio, na formatura de ensino médio, e consistiu em meia garrafa de champanhe, virada no gargalo, de uma só vez. Coisa feita na frente dos pais, tios e amigos. Todos celebrando, se divertindo, quase aplaudindo. O riso em suas caras denunciava a frase: “parabéns, você foi aprovado no ritual. Já é um sujeito adulto!”

Em várias circunstâncias é assim. Para a balada ser boa não bastam corpos sarados, rostos bonitos e gente descolada. Sem o álcool a festa perde o sentido. As doses etílicas são libertadoras. Tudo fica lindo. Cria-se coragem para o xaveco. Dança-se à vontade. Vibra-se com o deejay meia-boca e a banda desafinada. A noite é uma criança. Importa é manter o copo cheio, sempre.

A festa acaba, seguimos para nossas casas, muitas vezes dirigindo e com o carro cheio de caronas. Outros tantos emendam a noitada com o trabalho ou vão direto para aula, com a cara amanhecida denunciando a bebedeira. Dá-lhe fotos nas redes sociais, com a cerveja nas mãos, a vodca, o whisky. A semana passa e logo vem a programação para o próximo porre, na véspera de feriado, numa quinta-feira ou no próximo sábado.

Mais uma dose? O que teria acontecido ao estudante Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, se não tivesse consumido 25 goles de vodca no campeonato de bebida da festa Inter Reps, numa república universitária de Bauru? Ele decidiu ir além. O ato de bravura parecia um presságio da mensagem postada, dias antes, no próprio perfil do Facebook: “é melhor morrer de vodca do que de tédio”.

A morte de Humberto, ainda que investigada pelo Ministério Público, é apenas mais uma a entrar nas estatísticas. Humberto é só mais um dos 320 mil jovens entre 15 e 29 anos que morrem anualmente em decorrência do consumo de álcool no mundo, seja por doença hepática, excesso de coragem, transtornos neuropsiquiátricos, brigas ou embriaguez ao volante.

Churrasco sem cerveja? Sem graça! Aniversário com refrigerantes? Furada! A comemoração do emprego novo? Pede logo o melhor merlot da carta de vinhos! É a formatura da prima? Aproveita os drinks no esquenta da república. Até em batizado de crianças, no almoço, lá está o álcool. E mais ainda se for para afogar a decepção amorosa ou a derrota do time. E esta mentalidade, quando seremos capazes de mudar?

Conhecido como o quinto país em mortes por álcool na América, o Brasil ainda ignora a própria realidade e continua a glamourizar a bebedeira e o consumo desenfreado do álcool como iniciação da vida adulta. São homens e mulheres, pré-adolescentes, jovens, adultos, cidadãos de meia-idade, gente de todos os poderes aquisitivos. Cantamos e dançamos ao refrão dos Aviões do Forró com beber, cair e levantar.

Não quero ser moralista nesta discussão. Particularmente, aprecio vinhos e cervejas, costumo me reunir com amigos em bares. O álcool está lá, mas nunca foi o ingrediente principal.

Defendo, no entanto, maior regulação dos órgãos governamentais nas propagandas de bebidas, assim como a melhoria na fiscalização da Lei Seca e punições mais rígidas a quem comercializa álcool a menores de 18 anos. Assim como defendo uma política pública eficaz, que contribua com a recuperação de adictos.

E alimento a utopia de que a morte de Humberto serve para colocar, no centro da mesa, a discussão. Bem mais saudável que perdemos tempo com esse blá-blá-blá partidário-político nas redes sociais, pois trata-se de um grave problema de saúde pública nacional.

2 comentários em “25 doses de vodca

  1. fi80s
    10 de junho de 2015

    * no 4o parágrafo: trocar “jovem rapaz” por “jovem estudante”

    kkk, Ro, tb sou obsessivo em revisar textos…

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  2. fi80s
    10 de junho de 2015

    Ia comentar o texto, acabei deixando, mas hoje ouvi algo que me fez pensar e escrever…

    Fiquei sabendo que num aclamado festival de rodeio da região, alem de camarotes patrocinados por industrias de bebidas alcóolicas, onde são servidas cervejas a vontade (open bar, sinônimo de “pode beber sem moderação”), os cantores se apresentam no palco regados com destilados durante todo o show, inclusive recebem um “chorinho” da plateia, fazendo cara de gosto quando bebem. Em frente a 80 mil pessoas, homens, mulheres, idosos, adolescentes…

    Bem, se nos conceituados eventos sociais de nosso pais (padrão importação, ja que esse evento é suposto ser um dos melhores do Brasil) estimula-se o consumo de álcool, como ser hipócrita e querer recriminar o uso em festas de faculdade?

    Não desejo de maneira alguma ser indiscreto ou insensível com a dor da perda da família do jovem rapaz, nem com as famílias de tantas pessoas que sofrem com o álcool, até mesmo porque trabalho com essas pessoas e sei o quanto essa substancia química é nociva, física, psíquica e socialmente, quando em excesso…

    Mas se não começarmos a rever nosso posicionamento frente ao uso desenfreado e a propaganda do álcool, casos como o de Humberto serão sempre noticia.

    *em tempo, posso fazer uma provocação?
    Se ao invés de beber uma ou duas garrafas de pinga os citados cantores tivessem enrolado e fumado um único “cigarrinho de artista”, como a plateia/midia/pais+maes/igrejas teriam respondido ao ato?

    [novamente, deixando claro: não estou incentivando o uso de cannabis, so estou tentando imaginar a reação da sociedade ao uso “cênico” da substancia…]

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Publicado às 5 de março de 2015 por em Opinião e marcado , , .

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