Dando Nota

Rodrigo Alves

Eu já vi esse filme antes

50 tons Publicado no Jornal de Piracicaba em 20 de fevereiro de 2015
Página 2 do caderno Cultura

Com a estreia de 50 Tons de Cinza na semana passada, fiquei em dúvida se deveria conferir o filme no cinema. Três anos atrás, quando o livro foi lançado, com persistência cheguei à página 60. A curiosidade jornalística, de novo, falou mais alto.

Longe de condenar os fãs do romance, compartilho da máxima cada um, cada um. Já defendi quem ama Big Brother (eu mesmo assisti algumas edições) e sou do pensamento que regular o gosto alheio é o top do politicamente incorreto. No caso de 50 Tons de Cinza, tenho me esforçado para entender o frisson que o romance sadomasoquista causa nas pessoas. Será que a função é excitar? A mim não faz nada, nem um arrepio, nem tesão, nem coceguinhas.

Por outro lado, ter ido ao cinema foi uma experiência engraçada. A reação da plateia era de gritinhos, risadas e sussurros. Detalhe para a cena que causou orgasmos múltiplos: de helicóptero, o galã conduz a mocinha por um tour panorâmico em Seattle.

No fundo, 50 Tons de Cinza é um conto sobre dinheiro, poder e ganância e não sobre amor, paixão ou sexo selvagem. Uma narrativa tão universal que tem angariado a atenção de adolescentes e pessoas de meia-idade mundo afora. Anastasia Steele nada mais é do que a universitária sem perspectiva, dona de um Fusca azul, seduzida pela fortuna do jovem empresário. Ela recebe mimos e, em troca, se rende aos supostos maus-tratos sexuais. O resto é lorota.

Tirem os 20 minutos de sexo da obra. O que resta? Um elenco de quarta categoria e um desfecho previsível, em que a mulher é sempre a submissa da relação. Pior que dramalhão mexicano no SBT. Eu já vi esse filme antes, com outro nome ou elenco, e você também.

Até então, o título de mocinha mais entediante do cinema estava com a Bella de Crepúsculo. Hoje o cargo é de Anastasia. E o que dizer do Christian Grey? O padrão de galãs já foi melhor. Até Harry Potter ganha no quesito beleza. Tá certo, eu exagerei. Eles formam um casal bonitinho.

Se o livro não me atraiu nem pela metade, sensação semelhante tive com o filme de 125 minutos. Encontrei uma versão futurista de A Lagoa Azul, no máximo um Cine Band Privé light.

Apesar dos pesares, ainda enxergo luz no fim do túnel para obras ao estilo 50 Tons de Cinza. Embora desejasse que seu enredo fosse menos machista, ele tem despertado o debate sobre o sexo, o prazer, a realidade entre quatro paredes e outros assuntos ainda tabus na sociedade atual.

É claro que existem casos extremos atrelados ao filme: 200 jovens religiosos no Rio Grande do Sul marcharam contra “a sexualidade sem amor”; as lojas de brinquedos eróticos vivem um boom nos Estados Unidos; e os bombeiros de Londres, preocupados com o aumento de acidentes sexuais, alertam sobre os riscos de algemas ou anéis.

A quem realmente está em busca de algo excitante, recomendo o livro A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. Depois dele, qualquer obra erótica é fichinha. As mulheres que gostam de safadeza precisam conhecer. Os homens sem muita criatividade também.

A Casa dos Budas Ditosos é a obra-prima da perversidade. Sai do lugar-comum em matéria de sexo, sem o blá-blá-blá de dominador versus submissa e com um ponto favorável: a narrativa é conduzida por uma baiana de 68 anos. É um clássico nacional para deixar 50 Tons de Cinza no chão, pisoteado e roxo de vergonha.

5 comentários em “Eu já vi esse filme antes

  1. Renata Rodrigues (@Renata_R154)
    29 de abril de 2015

    Oii … Bom eu sou uma leitora e vi o filme também.
    Achei legal como o livro foi capaz de prender as mulher que não gostavam de ver a depois desse livro finalmente pegaram o gosto…rsrs
    Bom o filme como qualquer outro falta detalhes como tem no livro, mais sem da forma que foi já fiquei 3 horas dentro do cinema imagina se mostrasse tudo o tédio.

    Gostaria de convidar para conhecer o meu blog http://rodrigues-renata.blogspot.com.br/ … espero que goste :D

    Redes sociais que sempre coloco as atualizações do Blog

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    Beijos

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  2. Rodrigo Alves
    20 de fevereiro de 2015

    Michele, tudo bem? Talvez não nos conheçamos pessoalmente, mas agradeço sua visita ao blog e, especialmente, a leitura ao meu texto publicado também no Jornal de Piracicaba.

    No início do meu texto eu deixo claro que não faço julgamentos a quem gosta do livro e do filme. A trilha sonora e a fotografia, por exemplo, me agradaram.

    Também preciso deixar claro que trata-se de um artigo e não uma análise crítica. É a forma que tive de compartilhar a minha visão sobre o filme, mas não possuo formação em crítica e não me considero um crítico. Quem sabe um dia, com uma especialização, eu possa chegar lá, mas por enquanto este não é o meu objetivo.

    Há uma frase clássica atribuída a Voltaire que gosto de utilizar. Deixo como reflexão a você, é importante para refletirmos em todos os debates, que defendo, devem ser feitos com civilidade e educação. A frase é a seguinte: “posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”.

    Obrigado, bom fim de semana!

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  3. Michele
    20 de fevereiro de 2015

    Eu acredito que critico temos que conhecer e estidar, saber sobre o que esta falando acho principalmente essencial, por ser um jornal, acredito que pessoas mais capacitadas de conhecimento deveriam escrever sobrr algo, pois é facil deduzir do que se aprofundar e realmentebconhecervo assunto que se fala.
    Na minha opinião se a pessoa não sabe analisar uma simples história ou publicar uma resenha descente, não deveria escrever tal tolice, principalmente em um jornal.

    Curtido por 1 pessoa

  4. cris gabinu
    20 de fevereiro de 2015

    Ro só consegui ler o livro em etapas…mto esforço pra chegar ao final….ridículo msm. Bjs

    Curtido por 1 pessoa

  5. Ana Marly de Oliveira jacobino
    20 de fevereiro de 2015

    Pois é, notei desde que saiu o livro uma publicidade muito grande em cima dele… pude perceber pessoas que são avessas a leitura, o ler e ir além …ler a continuação da história… fico aqui pensando … nos meus anos de magistério envolvendo a Literatura pude aplaudir os alunos lendo Harry Potter (no auge do sucesso de cada lançamento a espera do filme da história do livro, enquanto, muitos eram contrários a leitura (inclusive os pais e dirigentes de algumas instituições escolares deixando os professores da Literatura numa corda bamba… com risco de serem demitidos se aprovassem a leitura (isto aconteceu em plena democracia) ). o mesmo está acontecendo com os 50 Tons de Qualquer Cor…qualquer livro… qualquer leitura… ufa! Positivo ou não, pessoas estão lendo, infelizmente… gostaria muito que elas se derramassem de amores pelos romances do nosso Bruxo do Cosme Velho… ficassem todos os seus leitores com olhos de ressaca.

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Publicado às 20 de fevereiro de 2015 por em Opinião e marcado , , , , , , .

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