Dando Nota

Rodrigo Alves

A vendedora de livros

almeida jr
Publicado no Jornal de Piracicaba em 6 de fevereiro de 2015
Página 2 do Caderno Cultura

“Você é de Piracicaba?”. A pergunta vem de uma simpática vendedora de livros, atrás do balcão, enquanto cobra mais um item de um cliente qualquer. Ela trabalha na livraria da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Ao lhe entregar um exemplar do livro “Almeida Júnior – Um Criador de Imaginários”, respondo: “moro em Piracicaba faz um certo tempo, mas não sou de lá”. Tem início uma longa conversa entre dois estranhos.

O assunto que nos une é o próprio Almeida Júnior, artista plástico morto em Piracicaba após levar uma facada do primo. O ano era 1899. O episódio causou comoção nacional e estampou os jornalões das capitais por mais de uma semana.

A vendedora de livros continua: “todos de Piracicaba precisam ler esse livro. Deveria ser obrigatório nas escolas”. Embora concorde, aviso que não é bem assim. Muitos na cidade desconhecem o artista e a sua história.

Ante à contestação, a expressão da vendedora muda. O sorriso se apaga. Surge a afirmação, permeada por dúvida e em tom de exclamação: “e em Piracicaba há um museu dedicado a ele?!”

Respondo que posso estar enganado, que talvez Itu, sua cidade natal, abrigue algumas pinturas, mas não Piracicaba. “Quem sabe algum objeto pessoal esteja no museu de Piracicaba, mas nada que chame muita atenção”, eu completo.

Bem informada, a vendedora de livros traz a expressão descontraída de volta ao rosto. Ela mostra propriedade no assunto: “sei que o túmulo do Almeida Júnior está lá. Morando na cidade, deve conhecer, né?”

Confirmo que visitei a sepultura no Cemitério da Saudade, tombada como patrimônio histórico. E lamento o fato de o Brasil não ter descoberto o turismo cemiterial, como acontece nos países europeus e em Buenos Aires, no Cemitério da Recoleta.

A vendedora de livros lamenta outro fato. Embora a Pinacoteca conte com 48 obras do pintor, há pinturas pertencentes ao Museu de Belas Artes e ao Museu do Ipiranga. É o caso de Partida da Moção, o seu quadro preferido. “Gostaria que o acervo ficasse concentrado na Pinacoteca”, ela diz.

Entrego o cartão de débito. São R$ 70. A vendedora concentra-se no registro dos dados na máquina. Enquanto isso, observo o vasto acervo da pequena livraria. As pinturas de Almeida Júnior estampam ímãs de geladeira, lápis, agendas e blocos de notas.

Curioso, volto ao assunto do livro que estou prestes a adquirir. Pergunto se os maiores interessados são de Piracicaba. Ela responde que sim, além dos moradores de Itu. “Acabou de sair uma moça de Piracicaba da livraria. Poucos compram o livro porque acham caro. Os souvenirs saem mais.”

A senhora parece não ter preguiça para mais um dedo de prosa. Sou o único da fila, mesmo com a livraria cheia. Alimento o diálogo. Os anos de profissão me ensinaram que jornalista não dispensa conversa. Aliás, quem puxa o papo é sempre o jornalista.

Ao preparar o embrulho, a senhora tenta me convencer a levar mais um produto. Informo que nas visitas anteriores adquiri os ímãs, os bloquinhos, a agenda e 10 lápis de uma só vez para presentear amigos.

“Você parece gostar do Almeida Júnior!”, exclama a vendedora de livros. “Gosto e, sempre que visito a Pinacoteca, passo para ver a obra Saudade, minha preferida. Se o tempo está sobrando, vejo o Caipira Picando Fumo e as demais expostas”. Ela diz: “o Caipira é um clássico entre os piracicabanos.”

Recebo o comprovante de pagamento. Retribuo toda a simpatia com um sorridente muito obrigado. Vou embora com o exemplar embaixo do braço, com a certeza de que terei boas memórias da vendedora de livros.

Um comentário em “A vendedora de livros

  1. Margarete zenero
    6 de fevereiro de 2015

    amei Rodrigo

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 6 de fevereiro de 2015 por em Opinião e marcado , , , , .

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP A Arte em Bronze, exposição que será aberta nesta sexta-feira, 7, na Pinacoteca Miguel Dutra, às 20h, reúne obras de 34 artistas do Brasil e do exterior. Visitas até 29/7, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Entrada gratuita. #Piracicaba250anos
%d blogueiros gostam disto: