Dando Nota

Rodrigo Alves

Simplicidade que encanta

boyhood 2

Publicado no Jornal de Piracicaba em 23 de janeiro de 2015
Caderno Cultura – Página 2

Se há algo que me agrada no início do ano é o tempo que corre em slow motion. Pode não ser assim para outras pessoas, mas no meu caso é quando disponho de algumas horas para finalizar os seriados pendentes ou dedicar-me ao ócio sem a típica pressão forçada dos demais meses. Janeiro também me apetece por causa da lista dos indicados ao Oscar. Numa espécie de peregrinação, tento assistir aos filmes tarimbados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Já gostei de um dos escolhidos pelos críticos de Hollywood, o longa-metragem Boyhood – da Infância à Juventude.

É preciso deixar claro certo detalhe sobre a produção aos que não a assistiram. Ela se enquadra na categoria “ame-a ou deixe-a”. São tantas as críticas desmotivadoras — monótono, chato e entediante, para citar algumas — que decidi encarar as três horas na frente da tela. Ao final, fiquei surpreso com o que assisti e, nesta tentativa, pretendo fazer uma análise sem bancar o crítico de produções cinematográficas, pois não me considero um. Peço desculpas se cometer espoliação.

A sinopse da obra antecede que pouco ela traz de extraordinária e sinaliza para um filme mamão com açúcar (ou água com açúcar, como preferem alguns). As cenas acompanham a trajetória do garoto Mason, dos 5 aos 18 anos. Ele vive com a irmã Samantha e a mãe Olivia, que é divorciada e cria sozinho os filhos. Até aí, tudo bem, mas o que difere o trabalho do diretor Richard Linklater é que foram necessários 12 anos para contar a história familiar, com o mesmo elenco e com roteiros escritos ano-a-ano.

Ao espectador é posta uma espécie de linha do tempo instável, composta por famílias desenraizadas, casamentos, divórcios, primeiros amores e rupturas. De uma abordagem naturalista, o filme deixa de lado cenas extraordinárias, espalhafatosas ou com efeitos especiais mirabolantes. O que impressiona é a reflexão (não forçada) sobre nossas próprias vidas, a partir de um lindo e único retrato que valoriza o tempo comum, os pequenos momentos da vida, os desejos e ansiedades do amadurecimento humano.

Boyhood é uma história de “gente como a gente”, que poderia se passar no Arizona, no Texas ou no Brasil. E é por isso que rola a identificação com as personagens: o filho que é obrigado a aguentar calado os desmandos do padrasto, os irmãos que dividem o quarto e brigam constantemente, o fora da namorada, a mãe que sofre com a síndrome do ninho vazio e as dúvidas na escolha da faculdade.

Para uma geração que viveu apenas três décadas, como a minha, Boyhood tem o poder de despertar a memória, sem apelar para a nostalgia gratuita. Olhamos para objetos de 12 anos com uma lembrança gostosa e cientes que são peças de museu, mesmo pouco tempo tendo se passado. Na rotina simples dos irmãos Mason e Samantha acompanhamos de forma sutil a evolução rápida dos jogos e a obrigatória adaptação ao admirável mundo novo da internet. Tais artifícios inteligentes do roteiro funcionam como metáfora visual e expõem de forma latente o desconforto de uma geração inserida em profundas e constantes transformações, além daquelas, tão profundas quanto, que ocorrem internamente.

Geralmente é exagero dizer que um filme é diferente de tudo que você já viu antes, mas, neste caso, é muito verdadeiro. Não tenho a menor chance de acertar se a obra ganhará alguma das seis estatuetas do Oscar, tão menos se será escolhida como melhor filme pelos críticos da academia de Hollywood, mas certamente Boyhood é um grande filme, que coincidiu com minha fase atual, de seguir com calma o ciclo da vida, sem atropelar o tempo, e dar valor às coisas singelas.

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Publicado às 23 de janeiro de 2015 por em Opinião e marcado , , , , , .

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