Dando Nota

Rodrigo Alves

Vermelho, apenas vermelho

Fundo-Vermelho Publicado no Jornal de Piracicaba em 31 de outubro de 2014 Página 2 do Caderno Cultura

Esta é a terceira semana seguida que um artigo sobre política ocupa este espaço. É a ultima vez, prometo, pois estamos num caderno de Cultura. 

Também há um acerto meu, com a minha consciência: política, nos meus textos, não. Tá certo, eu descumpri. A culpa é da síndrome dos dedos inquietos, doença que acomete com frequência a classe jornalística.

Se você espera uma declaração de voto, tire o cavalo da chuva. Se acha que é sobre a vitória da Dilma e a derrota de Aécio, está enganado. É mais uma crônica sobre a política, apenas isto. Sobre as eleições, talvez, mas primeiro é sobre política e sobre nossas escolhas ao votar.

Também dispenso qualquer análise sobre o que levou cada um dos candidatos a ter mais ou menos votos. Essa atribuição deixo para os cientistas políticos.

Como já estamos há cinco dias desde a divulgação do resultado, nem sei se a minha opinião é válida. Já foram expressados tantos depoimentos que posso chover no molhado.

Depois de cansar o leitor com parágrafos rodeísticos, conto minha história do domingo da eleição.

Só fui votar quando a fome denunciou que precisava sair de casa. Abro o guarda-roupas e levo um susto. Resta-me apenas uma camiseta. Coço a cabeça, penso duas vezes. A peça é vermelha. Entre pegar o ferro e a tábua, prefiro a que está em mãos.

Da minha casa até a unidade de votação são quatro ou cinco quarteirões, quase em linha reta.

Logo na primeira esquina sou fitado da cabeça aos pés. A pessoa deve ter se incomodado com a minha calça, cor cinza. É que não encontrei uma bermuda que combinasse. A calça cumprida foi também a única opção, mesmo com o calor.

Ao chegar na escola fui alvo de um comentário maldoso. O cara estava com um adesivo 45, beeem grande, colado na camiseta.

“Não precisa nem declarar o voto, com esta roupa já denuncia”, disse ele, em tom de repreensão.

No mesmo instante o meu rosto ficou da cor da camiseta, sério! Arrrggh… 

Pouco conheço o sujeito, sempre o cumprimentei educadamente, por causa de amigos em comum.

Mesmo com a resposta na ponta da língua, o deixei no vácuo, fiz apenas joinha. Ele não merecia uma patada, num dia tão importante para a democracia.

Se até a Dilma usa terno verde, a cor do PV, e a Marina usa amarelo, a cor do pintinho amarelinho, eu posso usar vermelho.

Parece uma obviedade, não fosse a crueldade das pessoas até para coisas banais como a falta de tempo para passar uma peça de roupa.

Depois dessa decidi: vou inteiro de branco, quem sabe as pessoas pensem que esta é a minha opção de voto.

Se as escolhas fossem baseadas em lógicas tão simples, eliminaria meu voto em Aécio. Por melhor orador que seja, é sofrível encarar suas olheiras preenchidas com maquiagem. Descartaria a Dilma, que exagerou nas toxinas botulínicas. Marina, então, coitada! Passaria longe, tem um péssimo gosto para penteados e colares indígenas.

O que sobraria para este pobre eleitor?

Sou de uma cidade pequeníssima de Minas Gerais. Cresci vendo amizades se desfazerem de quatro em quatro anos. Coisa feia, gente indo para a delegacia e amigos de infância se separando depois da eleição.

Agora, de novo, presencio o ódio gratuito, a acidez inconveniente. 

Menos, gente! Numa democracia, a maioria vence. Perdeu, paciência, pode ser que em quatro anos a vitória venha. Está nervoso com a derrota, fique enfornado em casa, sem escambar a ira nas redes sociais. Ganhou? Parabéns!!! Também é possível comemorar, sem humilhar. 

Confesso que certas atitudes do meu povo sofrido e batalhador me faz pensar seriamente em fazer as malinhas para Miami. Lá, pelo menos, vermelho é apenas vermelho. Alguém, por favor, tem o celular do Lobão? Quero carona.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 31 de outubro de 2014 por em Opinião e marcado , , , , , , .

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
%d blogueiros gostam disto: