Dando Nota

Rodrigo Alves

Vamos às urnas, mas não vamos às ruas

urna eletronica

Publicado no Jornal de Piracicaba em 24 de outubro de 2014
Página 2 do Caderno Cultura

No artigo anterior, Cidadão de 3º Grau, ao refletir sobre a campanha política por militantes nas redes sociais, encerrei com uma indagação: onde estão os gigantes acordados? Esta semana, após assistir ao documentário Junho – O Mês que Abalou o Brasil, a constatação foi das mais pessimistas. Os brasileiros foram às ruas como massa acéfala.

Volto a descrever o ponto de vista sobre o filme — uma produção do Jornal Folha de S. Paulo — nas linhas abaixo. Chamo antes o leitor à relembrar os votos depositados no parlamento federal em 5 de outubro. Os jornalões e sites noticiosos estamparam, em letras garrafais, a constatação de que o Congresso de 2015 será o mais conservador desde 1964, contexto que assegurou por duas décadas o poderio do país às forças armadas.

Apesar da renovação de 43,5%, o predomínio em Brasília será de militares, religiosos, ruralistas e representantes de causas reacionárias. Dos 513 deputados eleitos, 4,5% têm até 29 anos. Fala-se até na Bancada da Bala, com 30% de militares. O diretor do Diap, departamento responsável pelo levantamento, assim definiu o cenário das urnas: “é apenas mais um produto da alienação”.

Embora lançado às vésperas da Copa do Mundo, numa tendência política clara do jornal Folha de S. Paulo, o documentário Junho – O Mês que Abalou o Brasil estava na minha lista de favoritos, adormecido, digamos assim. Reservei o fim de semana anterior ao segundo turno eleitoral para assisti-lo, à espera de um produto tendencioso, concebido tão somente para manchar imagens com bombas de gás lacrimogêneo, tiroteios e gritos de protesto.

Prejulguei, pelo trailer, que havia um interesse escuso, como ocorre nas manchetes dos jornalões em tempos eleitorais, da qual a Folha não é exceção. A condução do enredo, no entanto, se mostrou coesa e dá voz a pensamentos da esquerda e da direita, como manda o clichê jornalístico, além de especialistas da própria Folha. O documentário é bom, faz jus ao Prêmio Esso, como melhor contribuição ao telejornalismo em 2013.

A decepção não vem da direção de João Wainer, tão menos com a escolha das entrevistas, mas das reticências e interrogações deixadas pela massa que discursa nas telas, a mesma que ocupou as ruas. As cenas dão a impressão que nada daquilo se passou em terras brasileiras. Tanta luta, tanta garra, tanta vontade de mudar, tantas idades unidas nas ruas, tantas praças ocupadas, tanto patrimônio depredado e não consigo enxergar, hoje, as conquistas.

A polarização dos partidos na corrida presidencial e a falta de novos quadros no pleito eleitoral deste ano em nada difere das eleições passadas. São provas de que o 20 de junho pouco ou nada contribuiu nesse contexto, justo no momento em que poderíamos valer, de fato, o desejo de mudança, que só ocorre a partir do voto, pelo menos da forma como está constituída a democracia brasileira.

Aquele longínquo 20 de junho de 2013, com um milhão de pessoas nas ruas, estampará os livros de história daqui 10 ou 15 anos. Será página virada, uma aulinha de 50 minutos do ensino fundamental sobre o povo que brigou pelos 20 centavos de real. Transcorridos 16 meses da manifestação, os gigantes acordados são também anões acovardados, rebeldes sem causa, encolhidos e sumidos do mapa.

Neste domingo vamos às urnas, mas não vamos às ruas.

2 comentários em “Vamos às urnas, mas não vamos às ruas

  1. Rodrigo Alves
    28 de outubro de 2014

    O pior é constatar que ainda existem poderes manobrando a massa, Adilson. Leia-se, neste caso, o quarto poder, do qual teoricamente fazemos parte…rs. E assim seguimos: tudo como dantes no quartel de Abrantes.

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  2. Adilson
    24 de outubro de 2014

    Meu caro Rodrigo, volto a dizer o mesmo que disse naquele dia: “Puro massa de manobra, cortina de fumaça”. Era só olhar por que, por quem, para onde e como tudo estava sendo dirigido”. Se você rever as entrevistas com manifestantes feitas pelas redes de tv, a resposta da maioria era quase a mesma, nem sabiam por que estavam lá, apenas estavam, e, o pior de tudo, embora não assumissem, era apenas pelos 20 centavos, nem mais, nem menos. Muito diferente das manifestações em 1985, onde sabíamos para onde queríamos ir. Diferente também dos “caras pintadas” 91/92. É o Brasil de hoje. É muito triste.

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Publicado em 24 de outubro de 2014 por em Opinião.

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