Dando Nota

Rodrigo Alves

Engolir o riso a seco

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 10 de outubro de 2014
Página 2 do Caderno Cultura

O Salão Internacional de Humor de Piracicaba tem uma das edições mais críticas dos últimos tempos. Seja no cartum que conquistou o Grande Prêmio Zélio de Ouro, nas muitas charges expostas ou entre as exposições paralelas, a 41ª mostra cumpre com louvor o papel de provocar a reflexão.

Tem sido um ritual, nos últimos 10 anos, prestigiar a abertura do evento. Após o anúncio dos premiados, reservo uma tarde para apreciar com calma a produção dos profissionais de diferentes partes do mundo. Foi o que fiz no último sábado, 4, ao lembrar que o salão está próximo de encerrar as atividades.

O primeiro soco no estômago foi provocado pelo artista iraniano Afshin Nazari, que desenhou um prisioneiro com a corda no pescoço. O personagem parece preferir o suicídio a pular a grade da janela da cela, aberta e com o céu azul convidando para a liberdade.

Na exposição paralela também montada no mesmo armazém do Engenho, há uma obra de Millôr Fernandes com três sujeitos algemados nas paredes. Um deles, ao observar o mundo pela janela, solta a frase: “Pô, pessoal… lá fora tá muito pior!”.

Nazari talvez conheça o trabalho de Millôr, mas pode não ter consciência da similaridade de pensamentos. Em contextos distintos, separados pelo tempo e pela distância, escolheram o humor para discutir o real significado da liberdade.

Se o júri de premiação consagrou o cartum de Nazari como grande vencedor, postura semelhante teve a comissão de seleção, ao peneirar charges e cartuns com forte criticidade. O humor pode até ser rápido, descontraído, provocar o riso frouxo, mas é exceção.

O tradicional pau-de-arara — adotado pelos militares na Ditadura — agora serve de propaganda para palavras de ordem: carga tributária, corrupção, saúde, educação. O homem agoniza, de ponta-cabeça, e encara o espectador.

Em traços elaborados estão Dilma, Obama, Bush e Genuíno. Em vez de desfilarem na seção das caricaturas, riem da nossa cara na categoria charge, que relembra o recente escândalo da Petrobras, a importação dos médicos cubanos ao Brasil e a Copa das Copas.

Em plenas eleições, a alternativa é botar o dedo na ferida até sangrar. Os aspirantes a cargos políticos são produtos nas gôndolas dos supermercados. Vem de uma criança a lição sobre a crise hídrica: com o conta-gotas em mãos, deposita água no porquinho, e não as clássicas moedas.

Recorrente nas últimas edições, o uso exacerbado da tecnologia ocupa lugar de destaque na mostra. Ángel Boligán traz o manifestante ensanguentado, abraçado ao policial, a postos para a selfie. O teclado é transformado em dinamite por Reinaldo Tamayo, de Cuba. E o alpinista, ao final da montanha, encontra o Google.

É de um didatismo ímpar a paralela Humor nos Anos de Chumbo, da Folha de S. Paulo. Trabalhos entre 1964 e 1985 remetem ao tortuoso caminho da Ditadura Militar, combatido de forma pioneira ao longo dos anos no Salão de Humor e pelos cartunistas que abraçaram Piracicaba.

Neste fim de semana, presenteie-se com uma visita ao Salão de Humor. Ainda dá tempo: a exposição vai até o domingo, 12. Leve uma garrafinha d’água. Do contrário, engolirá o riso a seco.

3 comentários em “Engolir o riso a seco

  1. Pingback: 41º Salão de Humor de Piracicaba: alguns cliques | Dando Nota

  2. Rodrigo Alves
    10 de outubro de 2014

    Obrigado, Adolpho. A gente se vê neste sábado no Salão, com certeza!

    Curtir

  3. Adolpho Queiroz
    10 de outubro de 2014

    Parabéns pelo artigo meu caro Rodrigo. Muito bom !
    Adolpho

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Publicado às 10 de outubro de 2014 por em Opinião e marcado , , .

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