Dando Nota

Rodrigo Alves

Orkut, meu pequeno museu virtual

pendrive

Quanto tempo dura a informação na internet? A foto da balada, repleta de likes, fica em ascensão até quando? A pessoa é o que compartilha? Cinco terabytes armazenam uma vida? Indagações ou alucinações? Não almejo respostas. Agora tenho um museu virtual para chamar de meu. Tchau, Orkut. Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.

A sepultura virtual desperta nostalgia. Uma senha a menos para lembrar. Vai tarde, rede social. Desgastada, antiga, ultrapassada. Adjetivei desta forma no passado. Escrevi um texto de despedida, outro com severas críticas. A hora se aproxima, o sentimento muda. Quero retroceder. Uma década basta. Nada adianta apelar aos deuses.

São quase 23h de 29 de setembro. Tenho uma hora para percorrer as fotos. Analiso uma a uma, sem exceção. Bisbilhoto os perfis alheios, reencontro velhos amigos. Admiro as expressões felizes nos avatares. A pilha de testimoniais é fofa. Lembranças são reavivadas. Lágrimas ameaçam cair. O choro é engolido.

Leio o convite de uma amiga. Para atualizar o repertório, convida para irmos ao boteco. A outra pede desculpas pela visita surpresa no domingo. O colega de faculdade pergunta sobre a disciplina de comunicação empresarial. Tem dúvidas às vésperas da prova. O tempo passou. Geramos conteúdo na rede. Um mar de scraps transformado em museu.

Ter saudades, do quê? Os 192 amigos que restaram, as últimas bolachas do pacote, escafederam-se antes de consumado o fim do Orkut. Mesmo sorridentes, migraram para endereços virtuais atrativos, limpos, agradáveis, repleto de novidades. Esqueceram as comunidades, as mensagens de aniversário, as classificações. O universo dos gifs animados turvou as visões.

Os anos de existência do Orkut passaram voando. É desse tempo que sinto falta, impossível de recuperar. Tempo em que a informação era digerida com calma. Tempo de ouvir as conversas atentamente. Tempo de ingenuidade, de descobertas. Tempo que escancarou uma grande cortina virtual aos nossos olhos. Atravessamos o tempo ou fomos atravessados por ele?

A chuva de sensações desabrocha. A realidade bate a porta. O Orkut é avô e pai de muitos ópios virtuais. Nas ruas, homo sapiens modernos tropeçam entre si, curvados como os primatas quadrúpedes. Saciados com chamadas de 140 caracteres, caminham com pressa. Estão submersos nas telas luminosas de três polegadas. Thomas Edison, o gênio da lâmpada, se pergunta: tanta luz, pra quê?

Volto para a tela azul calcinha do Orkut. A mensagem em letras garrafais ensina, passo a passo e didaticamente, todos os procedimentos para armazenar a vida virtual no computador. É como se o Orkut dissesse, de uma outra forma, que está cansado dos excessos. Pare o mundo que eu quero descer.

Compactar os arquivos é a única alternativa. Tem início o backup. Uma década disponível em menos de 20 minutos. Meu novo museu virtual é composto por um acervo de duas pastas, 17 subpastas e 242 arquivos no formato html. Uma pasta com 813 itens e 35,1 megabytes. Minha vida cabe num pen drive.

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Publicado às 3 de outubro de 2014 por em Opinião, Tecnologia e marcado , .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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